Passar as emoções conflitantes de Fahrenheit 451 para um leitor é uma tarefa, de um certo ponto de vista, fácil. E dolorosa. Basta que imaginemos um mundo completamente alienado e distópico em que os bombeiros, em vez de apagar as chamas e salvar vidas, incendeiam bibliotecas e não poupam aqueles que resistem às regras do regime ao se colocar na frente de seus livros, como forma de protesto e desespero. O que mais perturba neste prestigiado livro de Ray Bradbury, no entanto, é a passividade da qual os humanos modernos são dotados, indiferentes ao conhecimento, cegos por vontade própria.
Mostrado ao leitor de uma perspectiva bastante contraditória, o protagonista Montag é um bombeiro, como quase todos os outros homens foram em sua família, e, até certo momento da narrativa, leva uma vida normal - e vazia, pois todas as vidas normais em Fahrenheit 451 são vazias - ao lado de sua esposa, Mildred. Tudo muda, porém, no instante em que ele conhece Clarisse, uma nova vizinha bem jovem e contestadora que vive lhe fazendo perguntas às quais ele é incapaz de responder. Despertado por uma súbita consciência, então, cheio de dúvidas e incertezas a respeito da vida que leva e de tudo que tem feito, vivendo ao lado de uma mulher com a qual ele nem sequer tem lembranças, o personagem passa a mudar muitas de suas atitudes e, entre as mais perigosas, cobiça o que há de tão revelador por detrás dos livros a ponto de torná-los nocivos a sua sociedade ignorante.
"A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?"


















