Título original: A Game of Thrones
Autor: George R.R. Martin
Tradutor: Jorge Candeias
Editora: Leya
Número de páginas: 591
ISBN: 978-85-62936-52-4
Edição: São Paulo, 2010
Gênero: Literatura americana; Ficção fantástica
Aviso: Esta resenha NÃO contém spoilers
Quando Eddard Stark, lorde do castelo de Winterfell, aceita a prestigiada posição de Mão do Rei oferecida pelo velho amigo, o rei Robert Baratheon, não desconfia que sua vida está prestes a ruir em sucessivas tragédias. Sabe-se que Lorde Stark aceitou a proposta porque desconfia que o dono anterior do título fora envenenado pela manipuladora rainha – uma cruel mulher do clã Lannister. E sua intenção é proteger o rei. Mas ter como inimigo os Lannister pode ser fatal: a ambição dessa família pelo poder parece não ter limites e o rei corre grande perigo. Agora, sozinho na corte, Eddard percebe que não só o rei está em apuros, mas também ele e toda a sua família.
Quem vencerá a guerra dos tronos?
“Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre. Não existe meio-termo.”
p. 346
Antes de começar a leitura de “A Guerra dos Tronos”, estava com um enorme medo e também esperançosa, admito, de encontrar uma nova obra feita à imagem e semelhança, talvez, da pioneira no gênero fictício fantástico, “O Senhor dos Anéis”. Fiquei feliz, entretanto, e apenas feliz em descobrir que nada era tal como imaginava, sentindo-me assim no dever de alertar o leitor que pensou da mesma forma e o leitor que não prosseguirá até o final da resenha por preguiça, cansaço, obrigação ou simplesmente por não prosseguir.
Provavelmente ficarão confusos com minha confidência de que tinha esperanças de encontrar uma obra semelhante à de Tolkien, mas a explicação é muito simples, estava apenas aguardando por algo tão majestoso, tão grande e que me empolgasse como a epopeia de Frodo o fez. Mais uma vez insisto em animar o leitor, pois George Martin é mestre e explora as mais extremas vertentes de sua obra de maneira experiente, atando todas as pontas e todas as várias personagens de forma peculiar.
Falar sobre a história do livro em si não é realmente fácil, pois até certo ponto pode deixar de ser uma informação comum e tornar-se um spoiler precioso. Além disso, provavelmente traria muito confusão às suas cabeças, tamanha a quantidade de personagens dos mais diversos clãs e das mais diversas condutas dos Sete Reinos.
A narração é em terceira pessoa, embora seja onisciente e cada capítulo assuma a visão de uma personagem. O foco, naturalmente, fica, como se lê na própria sinopse, entre a família Stark, que conta com Eddard, Catelyn e seus filhos Robb, Bran, Rickon, Sansa, Arya e o bastardo de Lorde Stark, Jon Snow, e os Lannister, representados pelo anão Tyrion. Além destes, faz-se notável e necessária na história alguém que ainda não interage diretamente com os clãs que estão em briga, mas que virá, em algum ponto, a cruzar o caminho dos Senhores do Norte e do Sul, a princesa Daenerys Targaryen, Filha da Tormenta e do sangue do dragão.
Creio eu que, sendo o meu leitor uma pessoa normal, já deva ter esquecido de todos os nomes e dos clãs aos quais eles pertencem, o que é absurdamente comum, principalmente ao decorrer do livro. Se não falha-me a memória, aproximadamente à página 100 que fui lembrando e tendo certeza de que Ned era apelido de Eddard, Dany de Daenerys, Cersei era a rainha e outras coisas que virão naturalmente.
O tamanho dos livros é o que geralmente assusta. Perguntaram-me, de brincadeira, umas várias vezes se eu estava lendo alguma espécie de Bíblia. Ainda assim, “A Guerra dos Tronos” tem menos páginas que “A Ordem da Fênix”, por exemplo, o 5º volume da Saga Harry Potter, o que é apenas uma questão de diagramação e espaçamento entre as folhas mesmo. Não se deixe, contudo, enganar-se, pois a obra de Martin não é algo que possa ser lido da noite para o dia. É necessário o tempo devido para absorvê-la, para compreendê-la. As palavras que o leitor aqui encontrará não serão tão difíceis ou cansativas quanto as do autor de “O Senhor dos Anéis”, por exemplo. Dificilmente verá algo arcaico, que não saiba explicar, ou há de se deparar com uma narrativa enfadonha, também não se trata disso. Suponhamos que seja como uma lição histórica: para entender o porquê de tal reino ser inimigo do outro, devemos estar inteirados em suas trajetórias e nas de seus representantes. Não é apenas folhear vorazmente, devorar e esperar que tudo cairá muito bem, pois acabará tendo uma verdadeira indigestão literária.
“As Crônicas de Gelo e Fogo” compõem, acima de tudo, uma série de caráter adulto. Logo neste volume, “A Guerra dos Tronos”, facilmente nos deparamos com situações que vão muito além da fantasia usual, tida como gênero infantil. Na série de Martin, há sexo explícito, violência, incesto, estupro, morte e creio que tudo fica ainda mais visível pela adaptação feita à televisão pela HBO, que leva o nome original do livro, “A Game of Thrones”,
Entre as muitas peculiaridades e qualidades do autor, destaco exatamente a notável influência humana sobre a obra, o lado psicológico de cada personagem tão bem composto, deixando sempre em dúvida de qual lado ficam os “bons” e os “maus”. Por quê? Simplesmente porque não há bem ou mal, há apenas Gelo e Fogo, Norte e Sul, muitos clãs e reinos, muitos lados e a eterna tentativa de vencer uns dos outros. Temos Eddard Stark, o homem nobre e valente, senhor de sua casa, rei. Robert Baratheon, que foi guerreiro e tornou-se um soberano estúpido, cheio de ostentação e remorso por não cumprir o seu papel. Catelyn Stark, tão senhora de si e defensora leal de seus filhos e de seu homem. Cersei Lannister, manipuladora, traiçoeira, adúltera, vingativa. Tyrion Lannister e suas palavras, sua astúcia e inteligência tão grandiosas se colocadas ao lado de sua estatura. Arya Stark e sua rebeldia, seu desejo de ser e fazer mais. Sansa Stark e sua futilidade, inocência e doçura. Jon Snow, bastardo, corajoso, nobre e determinado. Daenerys Targaryen, sangue do dragão e sempre tão temerosa quanto à proximidade de seu irmão. Temos, enfim, personalidades que oscilam perante o amor, perante a coragem e a covardia, perante o poder, a tristeza, a dor e que nada têm de mais fantásticas. A fantasia em si, falando-se a verdade, fica por conta das menções que assombram aos Outros, não muito explorados neste volume, e aos seis lobos gigantes, filhos da casa Stark, que desempenharão papéis de suma importância ao lado de cada filho de Eddard.
Em um artigo do site da Revista Veja intitulado “Dez razões pelas quais “A Guerra dos Tronos” é (muito) melhor que “O Senhor dos Anéis", há fortes argumentos contra a obra de Tolkien que seriam ainda mais fortes se realmente as obras pudessem ser equiparadas. Enquanto “O Senhor dos Anéis” compromete-se com o nobre, com o fantástico e o encantado inocente, “As Crônicas de Gelo e Fogo” são cruelmente humanas e comprometem-se com nada mais, nada menos que o realismo mais concreto que pode haver em uma obra fictícia.
A influência de Tolkien sobre George Martin faz-se notável logo à primeira página, na qual há um mapa do Norte, desenhado pelos mesmos padrões que os mapas que encontramos na trilogia “O Senhor dos Anéis”. Contudo, logo após fazer-se notável, some, permitindo ao leitor conhecer e, ao fim, saudar de bom grado a obra-prima e autêntica de George R.R. Martin.
Fiquem atentos, meus caros, pois...
“O inverno está chegando...”
Avaliação Geral:
Nota 5 de 5 (Ótimo)
Abraços a todos,