Infelizmente, não me foi possível postar o texto da semana no domingo. Estava com matéria acumulada de provas para estudar e acabei ficando um pouco ausente. Hoje, entretanto, venho com uma dica de livro um tanto diferente. Um clássico contemporâneo...
Se você está acostumado a ler histórias mais leves, tipicamente juvenis, prepare-se para entrar no mundo, na alma, no espírito e no olfato deste repugnante assassino...
Editora: BestBolso. Por ser um clássico, é facilmente encontrado em outras editoras.
Número de páginas: 280
França, século XVII. O recém-nascido Jean-Baptiste Grenouille é abandonado pela mãe junto a restos de peixes em um mercado parisiense. Rejeitado também pela natureza, que lhe negou o direito de exalar o cheiro característico dos seres humanos, pelas amas de leite e por instituições religiosas, o menino Grenouille cresce sobrevivendo ao repúdio, a acidentes e doenças. Ainda jovem descobre ser dotado de imensa sensibilidade olfativa e parte em busca do aroma perfeito, do perfume que lhe falta para seduzir e dominar qualquer pessoa.
Nessa busca obsessiva, ele usurpa a essência dos corpos de suas vítimas. Com uma linguagem impetuosa e frenética, Patrick Süskind conquistou leitores de todo o mundo. O Perfume foi traduzido para mais de 40 países e chegou ao cinema com uma superprodução memorável de Tom Tykwer, estrelada por Ben Winshaw, Dustin Hoffman e Alan Rickman.
O Perfume está longe, muito longe de ser uma história comum. Ainda mais de causar opiniões amenas, o típico meio-termo. Quem se interessar pelo livro corre o risco de adorá-lo ou quem sabe, não menos provável, odiá-lo.
Jean-Baptiste Grenouille é o tipo de protagonista pelo qual sentimos duas coisas ao mesmo tempo: nojo e fascínio. Um ser humano que, como o próprio livro relata, optou desde o seu nascimento pela sobrevivência. Ao contrário (ou não), do que muitos podem ter pensado ao ler a sinopse, não se trata aqui de uma vítima, mas de uma verdadeira e muito engenhosa negação da natureza. Grenouille não faz o perfil de qualquer um dos personagens padronizados. Não é o herói, não sente qualquer amor ou compaixão por outros, nem por si mesmo, assim como está longe de ser o vilão. Não visa prejudicar qualquer um em especial, além de ausentar-se nele aquele ódio pela falta de atenção, a vingança em nada lhe inspira. Trata-se, real e assustadoramente, de um monstro. Um monstro insensível que não exala cheiro e, entretanto, tem o nariz mais aguçado entre todos os homens.
“Enquanto os olhos mortiços se voltavam para o indefinido, o nariz parecia fixar objetivo determinado, e Terrier tinha a sensação muito estranha de que esse objetivo era ele, o próprio Terrier. As asinhas do nariz, em torno dos dois buraquinhos, inchavam como uma flor prestes a se abrir. Ou, antes, como as cúpulas daquelas plantinhas carnívoras no jardim botânico dorei. E, igual a elas, parecia sair deles um estranho fluxo. Para Terrier era como se a criança o visse com as narinas, como se ela o olhasse de um modo agudo e escrutinador, de um modo mais penetrante do que se poderia fazê-lo com os olhos [...]”
A criança, que foi negada por várias amas de leite e afastada de um convento para um internato até os seus oito anos de idade, tendo inspirado várias tentativas de assassinato por parte de seus colegas, que a temiam extremamente, cresceu e tornou-se um jovem esquisito que - repugnado pelos instintos naturais de todos os seres humanos, calculista, resistente a qualquer praga ou doença -, lançar-se-ia na busca pelo perfume perfeito.
É admirável a forma com a qual o livro é narrado, com os aromas mais improváveis dos quais nunca nos tocamos. Quase somos capazes de sentir todos os cheiros que a Paris suja do século XVIII exalava. Grenouille, entretanto, por entre toda a sujeira, inala uma fragrância maravilhosa, nunca antes sentida. Algo incomum, que vem de uma jovem ruiva sozinha no meio da noite. Presenciamos o primeiro, e asqueroso, assassinato.
O personagem, então, passa a conhecer os mais diversos aromas e torna-se perito na arte de produzir essências com os mais diversos (e comuns). Almíscar, flor-de-laranjeira, óleos de rosas, lírios, narcisos, jasmins... Ao lado do fracassado perfumista Baldini, Grenouille conhecerá as várias técnicas para a extração de seu grande projeto, do melhor perfume e que vem, algum tempo depois ele descobre, da origem mais improvável, mais repugnante, o cheiro das virgens.
“...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração – ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.”
Estejam preparados para uma leitura forte, aromática e que explora os confins da alma do ser humano mais nojento e asqueroso que pode existir, um usurpador de essências cândidas, um assassino.