22 setembro 2011

22
set
2011

A Jornada por Erin E. Moulton

Título: A Jornada
Título original: Flutter
Autora: Erin E. Moulton
Tradução de: Mariângela Vidal Sampaio Fernandes
Editora: Novo Conceito* (parceira-cortesia)
Número de páginas: 200
ISBN: 978-85-63219-53-4
Gênero: Ficção; Literatura norte-americana

Assim que a mãe dá à luz a sua quarta menina, as irmãs Rittle enfrentam uma aventura cheia de mistérios, incertezas e riscos - uma Senhora misteriosa, uma floresta cheia de segredos, bandidos e um rio pronto a levá-las ao desconhecido. Mas o amor entre as meninas é mais forte do que qualquer susto e, juntas, elas descobrem o valor da esperança, da amizade e que milagres existem, sim, e estão mais perto do que imaginamos.


"Então, vejo um lindo par de asas pousado no interior da canoa. Danaus plexippus. É só uma borboleta monarca tentando se esconder da tempestada. Não faço ideia do porquê de essa borboleta estar me perseguindo, mas ela está sempre em volta."
p. 77

Buscamos muitas vezes enriquecer as coisas em detalhes. Queremos livros prolongados, com muitas palavras, versos bonitos, melífluos e acabamos por esquecer do quão valorosa é a simplicidade. Em "A Jornada", inocência e exaltação dos sentimentos mais puros e singelos são apresentados ao leitor na essência da narração de uma menina, uma criança com ares de heroína.

Ao iniciar a leitura, o leitor certamente não espera por se deparar com tamanha candura e até mesmo um ritmo todo característico dos nove anos de Maple, protagonista que carrega consigo uma história muito acerca do amor familiar, de crenças e descrenças, milagres, companheirismo e sonhos.

Logo nas primeiras páginas, a irmã mais nova das Riddle (Maple, Dawn e Beetle), Lilly,  nasce prematuramente e é diagnosticada com um coração fraco, que talvez não resista sequer aos primeiros dias de vida, deixando todos arrasados, desolados, como se nada pudesse ser igual a partir do momento em que estivessem suscetíveis a tal perda. É daí que a pequena Maple, descrente e resolvida a garantir o direito da vida à sua nova caçula, tem uma ideia astuta de remexer na biblioteca do pai e procurar pela história de uma personagem lendária de sua região, a Mulher Sábia da Montanha, dona de um rio com água milagrosa e curandeira, que apoia a todos que têm como causa o amor.

"Mulher Sábia da Montanha,
Tem piedade de mim.
Conceda-me este milagre,
Pois com alma pura eu vim.
Realiza o meu desejo,
Eu te peço com fervor.
Realiza o meu desejo,
Que é feito por amor."
p. 27/28

Iniciada a jornada em busca da água milagrosa das montanhas, percorrendo rios, corredeiras e florestas, Maple e sua irmã mais velha, Dawn, mostram sinceramente a importância da família. Entre momentos de briga, tristeza, dor, alegria, paz e angústia, elas caminham juntas e apoiam-se incondicionalmente, o que nos conduz a uma mensagem meiga ao longo de toda a narrativa.

Entre as personagens, impossível não apreciar a protagonista. É emocionante, é lindo ver o quão determinada uma criança de nove anos criada em meio ao carinho da família pode ser. Maple, ainda que narre o livro de forma muito infantil - o que, a propósito, confere a ele certa lealdade aos fatos reais -, é uma garota inteligente, que cresce com livros, com momentos de tranquilidade no lar, uma vida plena e feliz. Uma menina de alma boa, que não se conforma com a injustiça de alguém não poder conhecer a vida e luta cada novo passo em meio às matas fechadas pela frágil irmãzinha. Dawn é, de acordo com a visão da irmã, a típica filha mais velha. A que gosta de impor, a responsável, "mandona" e que nos momentos de angústia demonstra quanto apreço tem pela caçula, o quanto é capaz de sofrer para poupar dela qualquer sofrimento.

"Nunca me senti tão mal assim; estou tão cansada que mal posso me mexer, mas corro como nunca antes. Vou cortando através das árvores. Simplesmente ignorando as dores do corpo e os ruídos da noite. Ignoro tudo, exceto esse sentimento dentro de mim. Vou conseguir ajuda para a Dawn."
p. 179

Assemelhando-se em alguns momentos a histórias como "O Pequeno Príncipe", os valores de "A Jornada" vão muito além das simples palavras e da temática sem muitas complicações, sublime. Em uma sociedade que pouco se importa com amor, com auxílio, altruísmo, um conto familiar é sempre uma mensagem intrínseca ao que há de mais puro dentro de nós, por esse sentimento pelo qual fazemos coisas inexplicáveis, pelo qual passamos a crer em milagres. Eu poderia dizer que "A Jornada" é um livro infanto-juvenil por sua simplicidade e por sua história, mas seria um pecado privar os adultos de uma obra tão cheia de graça e de paixão, humanidade.

Destaque também para a diagramação maravilhosa, com borboletas ao início de todos os capítulos e uma página antes do início deles com várias delas, muito bem feito. No verso da capa, no interior do livro, há imagens no mesmo padrão, só que em tons de laranja semelhantes ao da imagem da borboleta monarca na capa que o deixam ainda mais gracioso, mágico.

Despretensioso, delicado, encantado. Sem paixões dolorosas, sem tristezas insuportáveis, sem romances proibidos, sem famílias problemáticas... São quatro irmãs, seus pais e uma avó que juntos e, apenas juntos, são maiores que todos os problemas do mundo. São união, companheirismo e amor nas palavras de uma menina de nove anos numa jornada de vida.

"A jornada nos levou a densas florestas, onde não havia um caminho a seguir, mas que depois se transformavam em campos abertos com nenhuma outra pegada além das nossas."
p. 95

Avaliação Geral:
Nota 4 de 5 (Muito Bom)

Uma boa quinta-feira a todos,