Título original: Between the sades of gray
Autora: Ruta Sepetys
Tradução: Fernanda Abreu
Editora: Arqueiro* (parceira-cortesia)
Número de páginas: 240
ISBN: 978-85-8041-016-7
Gênero: Ficção americana; drama; história soviética
Lina Vilkas é uma lituana de 15 anos cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de junho de 1941 muda para sempre seus planos.
Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria.Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.
A vida em tons de cinza conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags. Este livro descreve uma parte da história muitas vezes esquecida: o extermínio de um terço dos povos do Báltico durante o reinado de horror de Stalin.
Para Estônia, Letônia e Lituânia, essa foi uma guerra feita de crenças. Esses três pequenos países nos ensinaram que a arma mais poderosa que existe é o amor, seja por um amigo, por uma nação, por Deus ou até mesmo pelo inimigo. Somente o amor é capaz de revelar a natureza realmente milagrosa do espírito humano.
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"Cinzas", de Edvard Munch |
"Tristeza, pranto e ruína. Eu também via isso em Cinzas. Achava a obra genial".
p. 207
Repressão. Para compreender de maneira mais eficaz "A vida em tons de cinza", é necessário saber do poder do qual um regime político é capaz de usufruir.
O livro é narrado em 1ª pessoa por Lina Vilkas, uma jovem lituana de 15 anos que sofreu as consequências da Revolução Russa e do governo de horror do soviético comunista mais abominado de todos os tempos, Josef Stalin. Este, com as rédeas do controle de um país enorme como a antiga URSS (União Soviética), passou a invadir e a anexar os territórios vizinhos ao da potência socialista, deportando deles grupos de intelectuais que se opunham ou simplesmente eram indiferentes ao sistema político vigente. Professores, cientistas, médicos, jornalistas, escritores, músicos, historiadores, bibliotecários e estudiosos que pertenciam às classes mais abastadas eram levados em vagões de ladrões e prostitutas num tratamento desumano rumo à Sibéria, onde trabalhariam por décadas para os soldados russos em troca de míseras rações de pão diárias. A grande maioria, além de perder todo o seu patrimônio pessoal e cultural para o poder soviético, não suportava o frio rigoroso do extremo ártico e morria tremendo, doente, faminta. Gulags eram o nome dos campos de trabalho escravo administrados pela NKVD, que ficou mais tarde conhecida como KGB, o serviço secreto soviético.
Entre as nações das vítimas de expurgo, conhecemos profundamente a histórias de três pequenos países, os Bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia que, em meio à sua miudeza situada nas fronteiras da Rússia, dão-nos uma prévia de seu sofrimento e do horror de ter mais de 1/3 da população morta mas, ainda assim, perseverar em nome do amor quando resiste "A vida em tons de cinza".
Logo ao início do livro, Lina, seu irmão Jonas e sua mãe, Helena, são forçados a deixar o lar na Lituânia por soldados russos que tinham seus nomes gravados em uma lista. Sem saber para onde estavam indo, com o pai, professor universitário, desaparecidos, e fuzis sendo apontados para suas cabeças a todo o tempo, ficam apavorados e receosos do que estaria por vir.
As deportações começaram a 14 de junho de 1941 (data verídica) e, conduzidos pela violência e um futuro incerto, vão parar em vagões imundos, lotados de mulheres, jovens, crianças e idosos que não custam a adoecer logo nos primeiros dias de viagem. Diferentemente dos padrões de vida nos quais costumavam viver, para garantir a própria sobrevivência, comiam rações e sopas cinzentas em precariedade e quantidades mínimas. Centenas de pessoas unidas em espaços mínimos que aguardavam por notícias de fora, mulheres que depositavam todas as suas esperanças nos maridos intelectuais perdidos por trens e prisões, filhos que choravam e um caos, um verdadeiro caos.
"Vocês algum dia já pensaram enquanto vale a vida de uma pessoa? Naquela manhã, a vida do meu irmão custou um relógio de bolso."
p. 27
Em meio à desilusão e à ardente esperança de rever o pai, Lina e sua família conhecem Andrius, um jovem de idade próxima, e a mãe, a srª. Arvydas, pessoas que, como as outras, sofriam dos mesmos males e por essa desgraça, uniram-se num verdadeiro laço de amizade e amor.
A história segue e retrata a chegada dos povos bálticos à Sibéria, o trabalho escravo e o mar de desilusões que os congela. A obra de Ruta Sepetys é paradoxal. Nas mesmas páginas somos capazes de encontrar os seres humanos mais vis e também os mais puros, capazes de grandes sacrifícios para auxiliarem uns aos outros. O extremo ódio e o amor caminham lado a lado, compondo uma história melancólica, uma ficção que pode facilmente ter sido realidade.
"Mamãe empurrou depressa a sujeira, como se aquilo não a tivesse incomodado nem um pouco. Mas incomodou a mim. Tive vontade de acumular na boca todo o ódio que sentia e cuspi-lo na cara dele".
p. 107
O livro oscila entre alguns momentos do passado da família Vilkas que remetem à nova realidade e até ajudam a compreendê-la. O ceticismo de Lina e a notável antipatia a Stalin desde muito jovem fazem dela uma protagonista forte, que resiste e batalha, ainda que silenciosamente, por uma causa. Há, inclusive, um fato imprescindível à história sobre a personagem: a arte, o dom de desenhar. Através de seus rabiscos, ilustra a horrenda realidade em que foi forçada a viver e os esconde, guardando para que alguém no futuro os veja e, ao início, principalmente para tentar comunicar-se com seu pai, que reconheceria o traço da filha sob qualquer circunstância numa época em que tudo era censurado.
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"O Grito" de Edvard Munch |
Entre as outras personagens, destaque para Jonas, o pequeno grande menino que tão cedo teve de virar homem. Helena, a figura da mulher incondicionalmente mãe. Andrius, sua dedicação extrema, velada, seu amor puro e a obstinação em proteger Lina. Nikolai, a personalidade ambígua. O próprio "careca", que é a personificação do pessimismo e do medo que levaram um número absurdo de deportados a se suicidar.
"[...]o mal irá governar o mundo até o dia em que os homens e mulheres bons decidirem agir".
Trata-se aqui de um livro especial, triste, que nos reapresenta muito bem à ideologia há muito publicada e consagrada por George Orwell em "A Revolução dos Bichos", uma fábula satirizando a Revolução Russa, Stalin e Trotski, que dizia: "Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros".
Uns acreditaram que Hitler, ao invadir a União Soviética, libertaria-os de vez. Outros aguardaram pelos Estados Unidos da América em vez da vida condenada na Sibéria. Hitler veio, mas trouxe consigo algo pior ou tão ruim quanto, o nazismo. Os EUA apoiaram a URSS contra a Alemanha, contudo, logo tornaram-se os seus maiores inimigos.
Um retrato do comunismo distópico numa Lituânia desconhecida mas, acima de tudo, uma forte resistência da esperança.
"Olhe para mim - sussurrou Andrius, chegando mais perto. - Vou encontrar você - afirmou. - Basta que pense nisso. Pense em mim levando de volta seus desenhos. Imagine isso, porque estarei lá."
p. 174
Avaliação Geral:
Nota 5 de 5 (Ótimo)
Opinem, discutam, comentem!
Uma boa quinta a todos,
P.s.: Perdoem-me a aula de História, mas é uma das minhas outras paixões. Logo que concluí a leitura de "A vida em tons de cinza", fui buscar por mais informações acerca dos Expurgos, gulags e da Revolução Russa, Stalin.
P.s.2: Como Lina é uma artista e tem admiração por Edvard Munch, achei que as obras dele couberam bem à resenha.