30 agosto 2011

30
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2011

Destaque do mês #3: Pátria amada...What?

Por motivos de organização, a coluna foi transferida, neste mês, para a terça-feira.

Pátria amada... What?
por Ana Ferreira

    Disseram-me várias vezes detestar a literatura brasileira. Que nossos autores são cansativos, têm enredos muito complicados e que pouco interessam. Quando disse-lhes que os clássicos necessitavam de um pouco mais de paciência e compreensão, alegaram que nem os novos, brasileiros, eram capazes de lhes agradar.
    Pensei que talvez fossem os nomes... Autumn, Edward. Catelyn e Harry poderiam chamar mais atenção que a senhorita “Outono”, Eduardo, Catalina, João ou algo semelhante. Provavelmente não.... Logo podemos chegar à conclusão de que o leitor brasileiro anda encabulado, encantado com tudo que vem de fora.
    Basta um estrangeiro de rosto bonito colocar os pés em terras de Pindorama que já querem saber what's your name. Basta surgir um livro novo, estadunidense, inglês ou francês – é mais chique, certainement -, com a ilustração da capa de ofuscar os olhos, que já ficamos em polvorosa, cheios de dengo e desejosos de tê-lo em mãos.
    Se perguntarem à grande parte dos que cultuam com a Literatura assiduamente quais os nomes de seus autores prediletos, certamente ouvirão Neil Gaiman, dos conhecedores de boas obras, Stephenie Meyer, das mocinhas apaixonadas, Federico Moccia, das pequenas grandes mulheres que amam, J.R.R. Tolkien, mestre dos épicos, de um fã de livros e RPG e, talvez, alguém se arrisque a dizer um Tolstói ou um Nabokov, pois Literatura Russa é “de ponta”, classicamente falando, e esse leitor certamente terá um conhecimento que abrange a áreas extensas de bibliotecas renomadas. Eis que, então, em meio a tantos nomes difíceis de pronunciar, que sempre têm seus livros traduzidos por brasileiros e brasileiras, ouvimos alguém apaixonado pela obra de Clarice Lispector ou a de Mário Quintana, nativos de corpo ou de alma do país tropical. E eu, curiosa, extasiada pela adoração do produto nacional, pergunto-lhes de qual obra desses autores gostam mais, quando me respondem, um pouco embaraçados, que adoram aquele Twitter de frases ou o famoso poema, “Da Felicidade”... “Quantas vezes a gente, em busca de aventura,/ Procede tal e qual o avozinho infeliz:/ Em vão, por toda parte, os óculos procura,/ Tendo-os na ponta do nariz!”
   Não os culpo, não nos culpo, pelo fascínio que os estrangeirismos exercem. É difícil, por exemplo, ir a um sebo e deixar de comprar aquela edição de “A Menina que Roubava Livros” por um Veríssimo empoeirado, mas cheio de conteúdo e prosa a oferecer. É duro guardar 40 reais para uma edição especial de Lygia Fagundes Telles enquanto podemos gastar 20 com um lançamento que garante ser emocionante, elogiadíssimo pelo blogueiro amigo.
    A alguns, faltou o incentivo à leitura vindo desde muito cedo. Que as escolas começassem apresentando-nos ao universo divertido e rico em magia de Pedro Bandeira, Ana Maria Machado ou Lygia Bojunga. Poderiam passar depois a uma prosa um pouco mais madura, ou talvez às crônicas cotidianas de Marina Colasanti, à graça de Luís Fernando Veríssimo, Rubem Alves... Depois viriam os clássicos, mas viriam naturalmente, aos poucos. Alguns contos de Machado de Assis preparariam o leitor para a incógnita de Capitu, as histórias da infância de rapazes travessos acomodariam o jovem com As Memórias de um Sargento de Milícias, o Modernismo, que surgiria mais tarde, seria apenas uma comodidade, um passeio gostoso pelos tempos de nossos pais e avós. Clarice sem traumas, Mário de Andrade com paixão e seu idílio de Amar, Verbo Intransitivo.
    Aos que se negam terminantemente a esses prazeres clássicos da literatura brasileira, de autores muito antigos e, infelizmente, por vezes, póstumos, surgem a todo momento novos escritores de Norte a Sul de uma das maiores pátrias do mundo. Bons, indubitavelmente. Uns que preocupam-se verdadeiramente com a qualidade de suas obras, com os detalhes mais minuciosos para lhe renderem elogios; outros, nem tanto assim... Gente que leu alguns livros na vida e considera-se erudito o suficiente para redigir uma obra com erros abomináveis de ortografia e um desenvolvimento fraco, que nada causa ao leitor.
    Atualmente, a facilidade de publicar foi duplicada, triplicada se posta ao lado da de alguns anos atrás. O número de produções independentes é cada vez maior e muitas editoras jovens investem em autores sobrenaturais pelo calor do momento, que pede vampiros, anjos e súcubos em massa. É impossível não sentir uma certa deficiência no setor, que acaba pecando algumas vezes nas correções. O leitor brasileiro não entusiasma o seu produto, não patenteia. Os autores que tinham ótimas histórias, rendem-se aos best-sellers americanos e escrevem livros à sua imagem e semelhança, com Claire(s) apaixonadas por Ludwig(s) da Silva em Sergipe, nephilins pelas ruas do Bairro da Liberdade, mocinhas que passam as duas primeiras páginas do livro no Rio de Janeiro e fogem a mundos fantásticos, ou a Las Vegas, para encontrarem o amor de sua vida, inegavelmente americano mas que, de alguma forma, compreende perfeitamente o português. O choque bizarro cultural é apenas um dos elementos que reprimem escritores em potencial.
    Não é pouca também a quantidade de gente desesperada, amedrontada, cheia de desconfiança em sua própria temática, que cria finais alternativos para personagens aclamadas pela crítica. Um Harry Potter que veio parar na Bahia, um Frodo que vive no futuro, as princesas de contos de fada vagando pelas ruas de Manhattan e mais uma série de situações que constrangem o leitor que tenta – realmente vem tentando! - apreciar a obra nacional.
   Estranharão alguns leitores o fato de a blogueira que lhes escreve talvez entrar em contradição, uma vez que é notável a maioria predominante de livros internacionais neste blog. Agradeço-lhes pela paciência, meus caros, em terem chegado até estas linhas e assumo que talvez soframos dos mesmos males. Minha autora favorita é brasileira e tenho verdadeiro fascínio pelo texto de Machado de Assis, contudo, também desconfio do que vem sido produzido recentemente na indústria editorial de nosso país. Desconfio de histórias esquisitas, com capas que em nada chamam atenção pela precariedade de alguns autores e editoras descompromissadas, e temo que percamos a nossa identidade literária, cultural...
   Não quero mais histórias de casais fugindo para a Europa por parte de autores que apenas leram artigos no Wikipédia e consideram-se conhecedores do Velho Continente. Não quero nomes americanos ou americanizados, quero mais Maria, João, Pedro, Rafael e muita marmelada. Estou farta de Halloweens eternizados, tenho sentido falta do Curupira, da Iara, do Negrinho do Pastoreio, do Saci travesso que encheu-me a infância de riso. Nem tudo na vida são anjos e vampiros, há um mistério que até hoje não foi solucionado, o do ser humano. Livrem-me, acima de tudo, de “cazas” em vez de “casas”, de “familhas” em vez de “famílias”, de crases em quaisquer preposições que envolvam a letra “a”. Ser escritor não é apenas uma questão de criatividade, de subjetividade e sentimento. Há muita Matemática, muitas Exatas envolvidas nisso. Há regras ortográficas por todas as partes, coesão e coerência, vírgulas, travessões e um conhecimento amplo da Língua Portuguesa. Não sintam-se, de qualquer forma, demasiadamente exigidos. Álvares de Azevedo, aos 16 anos, em um passado muito remoto, já traduzia Shakespeare e Lorde Byron. Morrer aos 20 não o impediu de ser um dos maiores autores da geração ultrarromântica.
    Acima de tudo, peço carinho com a nossa pátria. Peço que olhem com mais amor à riqueza que temos presente em nosso verde, amarelo e azul. Esqueçam-se um pouco do brilhantismo pop dos norte-americanos, da riqueza da cultura erudita europeia e permitam-se a livros sem traduções, puros, em nossa própria língua. Não se deixem iludir. “Dom Casmurro” pode mostrar-se tão alarmante psicologicamente quanto “Lolita”, Clarice Lispector e Virginia Woolf caminham lado a lado, os romances adocicados de José de Alencar perpetuarão em sua alma, “A Cidade do Sol” conta parte da história moderna e da represália do Afeganistão, enquanto, em terras brasileiras, grande parte dos modernistas viveu em tempos de revolução. “As Meninas” retrata do ponto de vista de 3 jovens o quão difíceis foram aqueles anos de censura e regime político. Se, ainda assim, não desistiu de seu amado sobrenatural, procure pelos títulos em blogs que divulgam cada vez mais os nossos novos autores. Se quer sentir o gosto de ser jovem, Talita Rebouças está aí para todos os momentos...
    Preencher as estantes de Brasil não se trata de devorar a lista da USP em véspera de vestibular, mas de permitir-se conhecer e reconhecer as palavras impregnadas de lirismo e de nossa terra de sol, florestas e águas. Avancemos juntos contra o movimento retrógrado, ao esquecimento e apoiemos os autores de qualidade que estão surgindo.
    Se o nosso lema é “Ordem e Progresso”, por que regressar com as letras da pátria amada, que se chama Brasil?