27 outubro 2011

A Sombra do Vento, por Carlos Ruiz Zafón

Título: A Sombra do Vento
Título original: La sombra del viento
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradução de: Marcia Ribas
Editora: Suma de Letras
Número de páginas: 399
ISBN: 978-85-60280-09-4
Ano: 2007
Gênero: Romance; Literatura Espanhola
"Acompanhamos o vigia através daquele corredor palaciano e chegamos a uma grande sala circular, onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula esfaqueada por focos de luz que desciam desde o alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros se erguia da base até a cúspide, desenhando uma colmeia em cuja trama viam-se túneis, escadas, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma biblioteca gigantesca, de geometria impossível. Olhei para meu pai, boquiaberto. Ele me sorriu, piscando o olho.
- Daniel, bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos."
Dizem que, ao redigir uma resenha, apesar de toda a parcialidade contida em cada palavra, em cada vírgula, o autor em questão não deve, em circunstância alguma, assumir a sua condição de primeira pessoa do singular. No blog, para os que leem as resenhas daqui constantemente, é notável a ausência de "eu" entre os textos, com uma opinião intrinsecamente expressa. Mas, como toda regra tem a sua exceção e há um sentimento muito passional em alguns casos, não posso deixar de assumir-me perante vocês e narrar este texto, daqui em diante, como eu mesma, primeira pessoa do singular, completamente parcial.

Primeiramente, tive o privilégio de ler "A Sombra do Vento" há cerca de um ano atrás, logo após meu aniversário de quinze anos, um presente muito especial, indubitavelmente. Não o reli para escrever esta resenha crítica e nem seria necessário, pois é uma obra memorável à primeira, à segunda, à terceira, à décima leitura.

Logo ao início, somos apresentados a Daniel Sempere, ainda um garoto que acaba de completar onze anos,  cheio de saudades da mãe falecida, e, juntamente com o pai, caminha durante aquela madrugada de seu aniversário pelas ruas de uma Barcelona com ares sombrios e impenetráveis rumo ao inimaginável. Guiado pela figura paterna até portões desconhecidos, surpreende-se com a magnificência do que estava prestes a descobrir ali. Uma biblioteca enorme, cheia de alamedas, corredores aparentemente infinitos, pontes e andares de leituras para toda uma eternidade... Era o Cemitério dos Livros Esquecidos. Repleto de obras de tantos autores perdidos pelo tempo, raridades desejosas por um leitor e, entre elas, estava "A Sombra do Vento", de Júlian Carax, que dá nome a este fascinante livro de Zafón e guia toda a história de maneira maestral.

Naquela noite, o menino Daniel descobre-se um amante da literatura e devora com fervor cada página escrita por Carax, cada mínimo detalhe que ousa escapar-lhe por um momento. Instigado e extasiado com a força das palavras, especialmente daquelas palavras, passa a buscar, juntamente com seu pai - que também é um notável intelectual, dono de uma livraria não muito famosa - por outros livros de Júlian Carax, por algo a respeito do autor. A trama assume sua identidade, entretanto, quando descobrem com o apoio de Gustavo Barceló, profundo conhecedor das artes, que por algum motivo, todas as obras publicadas do autor estão sumindo misteriosamente e aquele "A Sombra do Vento" mantido de forma tão segura no Cemitério dos Livros Esquecidos pode ser o último exemplar existente.

Seria um pecado dizer que a trama se resume a isso, mas é, de fato, a problemática central da história, da qual todas as outras giram em torno. A grandeza da obra de Zafón está nos detalhes... Em sua descrição deliciosa, oras poética, oras irônica e até sombria. Na forma com a qual embala o leitor num ritmo frenético mal percebido por este mesmo, fazendo com que nos tornemos íntimos de Daniel e de todos os personagens que passam por sua vida.

O livro evolui juntamente com o menino, que cresce e se torna um rapaz. Conhecemos e quase podemos sentir sua paixão pelos livros; sua obstinação em descobrir quem é Carax; seu primeiro amor por Clara Barceló, a moça cega e bem mais velha pela qual Sempere se encantou e a qual também lhe causou sua primeira desilusão; a amizade tímida com Tomás; o carinho pela figura adorável e quase materna de Bernarda; a cumplicidade, ainda que silenciosa, com o pai; a amizade tão especial com Fermín; a redescoberta de Bea e, com ela, a descoberta do amor. Um misto de sentimentos, alegrias, tristezas e emoções que apenas conferem mais palpabilidade e tragam o leitor para uma Barcelona com reflexos da Guerra Civil Espanhola.

Há nos personagens uma essência muito humana e várias figuras que nos remetem a conhecidos. Impossível não ter um favorito, não se identificar com alguém em especial. Zafón ilustra desde o protagonista jovem, cheio de dúvidas e receios, Daniel, passando por Fermín, de enorme coração e nobreza, que morou na rua até ter sido convidado a trabalhar com os Sempere e quem rouba totalmente a cena quando aparece com seu delicioso senso de humor, até um dos antagonistas mais cruéis com os quais já me deparei após tantos e tantos livros, talvez por ser humano, talvez por não agir como um, por ter sido demasiadamente apaixonado, obcecado, e por ter aprendido a odiar muito cedo, Fumero.

Além disso, o livro apresenta um núcleo do passado, que representa a história de Carax e, principalmente aqui, tem Fumero como responsável por muitas maldades. É genuinamente triste e apaixonante o amor que descobrimos na mocinha Penélope Aldaya pelo sombrio rapaz que desenhava crucifixos em seu quarto e a adorava igualmente.A história de amigos que têm suas relações conturbadas após ciúmes fraternais e muitos, muitos outros fatos que devem ser descobertos pelo leitor com toda a paixão que a obra possui em si.

Eu poderia guiar o leitor sobre o que há de melhor em "A Sombra do Vento", todavia creio que seria uma injustiça poupá-lo do prazer de descobrir sozinho o sentimento forte e memorável que há nessa obra espanhola fascinante. Não me recordo de ter me deparado com contras ou erros, pois é provável que o brilho aqui presente seja forte o suficiente para ofuscar qualquer defeito.

Na parte posterior do livro, há uma sinopse que alega o fato de Zafón ser capaz de misturar gêneros, assumindo características claras de Alexandre Dumas em seu romance de aventuras, às vezes a novela gótica de Edgar Allan Poe e até os folhetins amorosos de Victor Hugo, três grandes escritores, com estilos que, juntos, hão de deslumbrar qualquer apaixonado por livros.

Ainda ao iníco desta resenha, jurei que seria totalmente parcial e assumiria o meu eu. Creio que tenha cumprido com o papel, porém enganei-me ao dizer que fui movida por um sentimento passional. O livro aqui em questão está entre os meus favoritos e não me recordo, ao certo, de quanto tempo demorei para lê-lo. Contudo, tendo em vista que quase todos os outros que se encaixam nesta minha categoria foram vorazmente "devorados" em cerca de um dia, estes sim foram puro ato de paixão. Com "A Sombra do Vento", eu garanto, o caso é mais grave. Puro, genuíno e agudo amor.
"Certa ocasião ouvi um cliente habitual da livraria de meu pai comentar que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho ao seu coração. As primeiras imagens, o eco dessas palavras que pensamos ter deixado para trás, nos acompanham por toda a vida e esculpem um palácio em nossa memória ao qual mais cedo ou mais tarde - não importa os livros que leiamos, os mundos que descubramos, o quanto aprendamos ou nos esqueçamos - iremos retornar."
Avaliação Geral:
 Nota 5 de 5 (Excelente)

Uma boa quinta-feira a todos,


17 comentários:

Esmalte de Morango disse...

Ana que resenha ótima!
Eu fico impressionada como você faz as resenhas, as palavras que você usa e tal. Enfim, você escreve super bem!

Quanto ao livro ele parece ser ótimo. Acho tão legal quando envolvem a literatura como um dos temas de um livro.
Confesso que nunca tinha ouvido falar de A Sombra do Vento. Vou dar uma procurada!

Beijão
http://manialiteraria.blogspot.com/

Luana Farias disse...

Bah menina eu acho interessante esse livro parece ser bem legal. No final das contas a resenha vai se indo...

Bjs

Kel Costa disse...

Que resenha linda e empolgante. Tenho A Sombra do Vento aqui, consegui numa troca, mas não tive ainda oportunidade e tempo de ler. Também não costumo ver muitas resenhas dele, então parei para ler a sua e realmente adorei.

Bjs,
Kel
www.itcultura.com

Carla Wolf disse...

ótima resenha,me deu uma vontade imensa de ler,parece ser um livro que vai dando vontade de ler a cada página,e não se torna monótomo com a leitura!
http://caahwolf.blogspot.com/

Lu Tazinazzo disse...

Sempre tive curiosidade de ler esse livro, e sua resenha me instigou ainda mais. Você escreve muito bem, e, na minha opinião, acho que esse espaço é seu mesmo, é SEU blog, então não vejo problema em suas resenhas serem em primeira pessoa.

Particularmente, acredito que o blog está aqui para isso, para expressarmos nossas opiniões, e não para agirmos como age a imprensa formadora de opinião. Acho que temos o direito de nos expressar como somos, creio que isso até enfatize mais o ponto apresentado.

É claro que o blog é seu, e você o faz como quiser. Eu adoro seu blog. Mas não se prenda a certas regras que outros ditaram. Não estou dizendo que é isso o que você faz, estou dizendo que você deve fazer como achar melhor.

Parabéns pela resenha!

Beijos

Lu Tazinazzo
http://aceitaumleite.blogspot.com/

Aione Simões disse...

Uau, Ana!
Que resenha!
Você tê-la feito em primeira pessoa não diminuiu em nada a qualidade da escrita, aliás, incorporou todo um toque pessoal que a tornou muito mais interessante e empolgante!
Sempre tento resenhar também excluindo o "eu", mas é tão difícil, principalmente por tratar de nossas opiniões.
Sempre que vejo esse livro, lembro da Duda, porque é o favorito dela! Estou muito curiosa pra lê-lo e sua resenha só aumentou minha curiosidade, tenho certeza de que vou gostar!
Amei, principalmente, sua conclusão. Foi poética, bonita e com um tom que simplesmente adoro, que dá impacto à resenha. Parabéns!
Beijos!

Bianca Sampaio disse...

Ótima resenha! Fiquei empolgada para desfrutar desta leitura também. Com certeza irei comprar esse livro o quanto antes!

Beijos!
Bianca - www.epilogosefinais.co.cc

Adriana T disse...

Eu tenho que ler esse livro, amei a resenha, geralmente eu gosto mais quando tem um toque pessoal, sei que não é o certo, mas me passa mais confiança na opinião expressada.

Eduarda Menezes disse...

Anaaaa,

Sempre que vejo alguma resenha desse livro eu paro na hora o que eu estiver fazendo para ler o que a pessoa em questão achou da história, porque essa é a História, se é que você me entende!
E quando vi que logo você - pessoa detentora de resenhas maravilhosas e muito bem formuladas - escreveu uma sobre ele, eu simplesmente tinha parar conferir mesmo à essa hora da noite (madrugada)!

Sério, eu não consigo nem descrever os milhares de sentimentos que passam pela minha cabeça ao ler e reler esse maravilhoso livro do Zafón. Pra mim a escrita dele é única, e acho que será difícil encontrar na minha vida, outro autor que se iguale à ele em toda a sua magnitude!

Sempre achei difícil e até injusto definir um livro como preferido pois são tantos que tiveram um significado todo especial para mim em determindo momento da minha vida, mas apenas A Sombra do Vento com sua narrativa poética e viciante, conseguiu tirar de vez essa dúvida da minha cabeça, pois nunca experimentei tamanha sensação ao folhear as páginas de um livro e desde então tenho lido vorazmente tudo que o Zafón lança aqui no país - aliás, Marina está Espetacular, tive até que me segurar para não marcar o livro inteiro já que logo nas primeiras páginas tinham mais de dez post its com passagens preferidas!

Amei a sua resenha e toda a emoção contida em cada uma de suas palavras e me emocionei mais uma vez ao relembrar cada um dos personagens e suas características únicas e bastante memoráveis, como você mesma ressaltou! Impossível esquecer as passagens e frases maravilhosas e toda a carga emocional contida em cada página!

Acredito que foi dessa mesma maneira que o Daniel se sentiu ao encontrar o seu exemplar de A Sombra do Vento, no Cemitérios dos livros esquecidos... só o Zafón mesmo para criar um livro com esse enredo e nos despertar a mesma emoção quase impossível, experimentada pelo seu personagem principal, em relação a um livro único, inigualável.. pois enquanto eu devorava o livro ficava constantemente tentando imaginar como o "A Sombra do Vento" do Daniel seria para exercer tamanho fascínio em sua pessoa, e foi aí que eu me dei conta que a resposta estava ali, em minhas mãos!!

Parei de tagarelar, PROMETO huahua!!
Eu me empolgo demais com esse livro e a sua resenha me deixou incentivada!

Beijão, querida!

Juliana Kobayashi disse...

esse é sem duvida um dos meus livros e autor preferidos, é um livro mto diferente, unico e delicioso de se ler!

Livros e Tsurus disse...

Ahhh uma resenha de um livro do Zafón.. =D
Eu tenho esse livro aqui, mas ainda não tive tempo de ler =(
Morro de vontade de ler um livro do Zafón, mas quero apreciá-lo com calma..
Sua resenha me deixou ainda mais curiosa!


Beijos

http://livrosetsurus.blogspot.com

Alinne disse...

Esse livro é maravilhoso! O li na semana passada e o que mais gostei foi do suspense ao redor de Catax.
É uma historia bem diferente e que deixa o leitor completamente fascinado no término do livro.
Parabéns pela resenha.
Beijos.

Books e Desenhos

Cíntia Mara disse...

Já me falaram muito bem desse livro; tenho vontade de ler, mas ainda não tive oportunidade.

Sobre as resenhas, eu prefiro as mais mais parciais e pessoais. Blogs não são jornais e blogueiros não são críticos literários, então - na minha opinião - podem ser mais livres :)

Beijos

Camila Costa disse...

uaaaaaau! *o* realmente parece um livro brilhante! eu ja ouvi fala e por um triz que eu não ganho (minha tia tia acabou por me dar a menina que roubava livros) quero muito ler!
Beijos Ana! *-*

Pah disse...

Oi Ana, não sei já te disso isso, mas você escreve muito bem. A forma com que você conduz o texto nos envolve de uma forma que não tem como não querer ler o livro! Sabe, eu também tento tirar o "eu" das minhas resenhas, mas nunca consigo, tenho um sério problema em me distanciar dos livros que leio, porque me envolvo sentimentalmente com eles, por isso, nunca escrevo as resenhas sem me envolver com elas, rs. Acho que me envolveria com esse livro, você deu um toque poético que me fez pensar o quanto gostaria dele Vou colocá-lo na minha lista do skoob!

Bjus

Pah, Livros & Fuxicos

Naty disse...

Que resenha ótima! Eu ainda não li esse livro e confesso que não tinha muito interesse nele, mas depois de ler a sua resenha com certeza quero ter a oportunidade de lê-lo ;)

bj;*
Naty - Just Books !

Teorias de Gi disse...

Que resenha marvilhosa e emociante ja vi este livro ene vezes na livraria mas ele nunca me chamou a atenção, pegava na mão, olhava a capa e pensava não outro dia eu levo, mas acredte nunca mais conseguirei olhar pra ele sem lembrar desta resenha da descrição dos personagens e tudo mais q vc relatou, com certeza na minha próxima ida as livrarias ele vira embora comigo e nos meus braços...beijussss...