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13 outubro 2011

Para Gostar de Ler #22 - Histórias de Amor

Título: Histórias de Amor
Autores: Lygia Fagundes Telles, Marques Rebelo, Marina Colasanti, Machado de Assis, O. Henry, Luís Fernando Veríssimo, João do Rio, Elias José, Orlando Bastos, João Antônio e William Shakespeare
Editora: Ática
Número de páginas: 157
Gênero: Literatura Brasileira; Antologia de contos
Quando na escola? Muito provavelmente no estudo dos contos, uma vez que não possui uma corrente literária definida, abrangendo várias épocas.

O amor pode estar escondido em uma floresta ou de seres encantados ou em um inacreditável engarrafamento de tílburis e carroças.
Pode durar toda a vida ou ser tão passageiro quanto uma ilusão. Pode ser o sonho de uma tecelã ou virar o pesadelo que abala uma antiga amizade. Não importa. Inspiração para escritores de todas as épocas, o amor será sempre um tema capaz de seduzir qualquer um de nós.
"Marina sorria, confirmando. Ele sorria também. Diversas vezes, ele olhou pra trás e a encontrou olhando. Trocaram sorrisos e olhares. Os dois estavam vivendo uma ternura primeira e não sabiam escondê-la."
Elias José
Mais uma vez trago ao leitor um tema tão discutido em todo o mundo e na mais pura literatura. Amor, novamente. Amor que neste vigésimo segundo volume da popular coleção Para Gostar de Ler cria-se e recria-se sem ser piegas, sem ser demasiado. Nem muito, nem pouco. Apenas na dose certa.

O mais interessante da coletânea é, muito provavelmente, a diversidade de estilos que ela abrange. Temos o amor cotidiano no texto de Lygia Fagundes Telles; a delicadeza, por Marques Rebelo; a fantasia e a metáfora embutida nos contos de fada de Marina Colasanti; a ironia e o realismo nu, desprovido de subjetivismos no eterno Machado de Assis; a crítica à sociedade por meio de um amor "por acaso", de O. Henry; o humor que divide a coletânea por parte de Luís Fernando Veríssimo; a paixão feroz e ilusória, um feliz descoberta através da retórica de João do Rio; a inocência do amor infantil cedida gentilmente por Elias José; um texto fascinantemente cruel, fantasioso e melancólico por Orlando Bastos; os sentimentos contraditórios do homem, de João Antônio e, encerrando com grandiosidade, a comédia de Shakespeare, tão conhecida por todos nós "Sonho de Uma Noite de Verão".

Sei que muitos não se interessam por contos, o que acho uma pena. Contudo, garanto que não arrepender-se-iam se, por acaso, resolvessem conhecer um pouco mais do universo desses textos curtos que falam tantas coisas em tão poucas linhas, com um valor inestimável.

Nesta obra, por muitas vezes, o texto conversa com o leitor e o convida a aventurar-se pelos tantos amores apresentados. Difícil é não reconhecer-se em algum dos personagens, não sentir o que eles sentiram de forma tão brasileira, à exceção do estadunidense O. Henry e de William Shakespeare. São histórias que se misturam e casam-se entre si de maneira muito desproposital.

Destaque para o conto de  Machado de Assis, "Fernando e Fernanda", uma história entre dois namorados que se desencontram em seu amor; para a ironia e a crítica engajada de O. Henry em "Manon e o arqueiro"; para a geniosidade de Orlando Bastos em trazer a pureza do amor misturada de maneira muito tênue à loucura e à desgraça em "Os Amantes".

Histórias de Amor, com suas poucas 157 páginas, promete ser um bom entretenimento ao leitor desinibido de preconceitos contra textos compactos e que pretende conhecer, intimamente, as tantas faces desse sentimento complexo pela eloquência que infalível dos queridos autores brasileiros.
"Nem uma palavra. Estavam num outro mundo. Ele caiu de joelhos, ela pendeu, estavam os dois. Era frenética e deliciosa. Deliciosamente deliciosa. A própria paixão a vibrar. E Geraldo voltou ao casinhoto, outro homem, aturdido, sem compreender o que via, a lembrar-se dos seus abraços e das palavras suas."
João do Rio
Avaliação Geral:
Nota 4 de 5 (Muito Bom)

Uma boa quinta-feira a todos!

08 setembro 2011

Oito contos de amor por Lygia Fagundes Telles

Perdoem o atraso!
Título: Oito contos de amor

Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Ática
Número de páginas: 87
ISBN: 85-08-05853-5
Gênero: Literatura brasileira; Antologia de contos
Quando na escola? Durante o estudo da corrente literária do Modernismo, que normalmente ocorre ao 3º ano do Ensino Médio, ou o conhecimento dos contos, sem nível estudantil certo.

O amor transforma uma simples ajudante de cabeleireiro na persistente Pomba Enamorada, numa espera sem fim. Um homem à beira da morte vê num colar de pérolas a saída para suspender o esquecimento inevitável da mulher que ainda é sua. A lembrança do primeiro amor de uma menina atravessa os anos encerrada num enfeite de cerejas de cera. Uma bolha de sabão paira no ar, transparente, fragilíssima, e no entanto impenetrável...
Banal, sublime, vago, fulminante... O amor tem todas as formas e está em toda parte. Mas é sempre mistério. Lygia Fagundes Telles, com a maestria de sua arte, sonda as profundezas desse abismo. Não para desvendar-lhe o segredo, mas para nele mergulhar o leitor. Nos oito contos deste livro, mesmo quando não mencionado, o amor é o personagem principal.

Acho um pecado colocar uma obra de minha autora predileta na seção “Encontrei na escola”, que tende a ser vista como a daqueles livros chatos para o estudo... Muito pelo contrário, grande parte da riqueza literária está contida aqui. Mais acentuada, porém, intrínseca em sua grandeza incalculável, majestosa, impregnada de lirismo e mistério. Com esta antologia não poderia ter sido diferente. Apesar das poucas páginas, garanto que a leitura vale a pena.

Somos apresentados a oito contos que têm como tema central o sentimento que mais mexe com nossas cabeças, o utópico e por vezes catártico, amor. A antologia é composta por “As cerejas”, “Pomba enamorada ou uma história de amor”, “As pérolas”, “Herbarium”, “A chave”, “Apenas um saxofone”, “O encontro” e “A estrutura da bolha de sabão”.

É importante ressaltar o quão peculiar a escrita de Lygia pode ser. O leitor deve se deparar com contos refinados, que admitem interpretações lentas, que tendem a surgir com o tempo e sobre as quais a própria autora, numa entrevista ao início do livro, comentou.

“Não espero ser compreendida, espero ser lida. Se possível, amada – confessei a um leitor que parecia preocupado, gostava dos meus livros mas muita coisa não conseguia compreender. Não tem importância, respondi.”
Lygia Fagundes Telles

Entre os oito selecionados para a coletânea que vieram de outros livros da autora, deparamo-nos com as mais distintas vertentes do amor e do desamor. Histórias de idílios da juventude, de mocinhas que se desiludem em saber o quão triste pode ser a rejeição, ciúmes que assumem tons de Bentinho em “Dom Casmurro” como no célebre conto, “As Pérolas”, paixões que transcendem o tempo e a própria realidade...

Um exemplo da criatividade e até de um lado mais bem-humorado da autora pode ser visto no texto muito sutil e paralelamente distópico, “Pomba enamorada ou uma história de amor”, que nos narra a vida de uma moça que não consegue se desapegar de uma paquera de bailinhos juvenis, cheia de viço e de disposição para amar incontestavelmente, ao longo de todo o seu trajeto.

A nostalgia chega a palpitar, a doer em “Apenas um saxofone” num sentimento descontrolado, exagerado em que a paixão sufoca, é letal e promete tirar o ar do leitor. “A estrutura da bolha de sabão” nos presenteia com uma das mais belas metáforas sobre o amor, tão fino quanto a película que envolve a espuma, que deve ser soprado com cuidado para não ser demais, facilmente levado pela ventania, que fascina, encanta...

“Nossa vida foi tão maravilhosamente livre! E tão cheia de amor, como nos amamos e rimos e choramos de amor naquele décimo andar, cercados por gravuras de Fra Angelico e retratos dos seus antepassados.”
p. 67

Nessa mistura sentimental envolvente que promete ao leitor respirar novos ares literários, Lygia coordena com maestria seus contos e seus tantos modos de amar.

“A palavra escrita é como uma tatuagem, escrever é um ato de amor.”
Lygia Fagundes Telles

Avaliação Geral:

Nota 4 de 5 (Muito Bom)

Uma boa quinta-feira a todos e não deixem de conferir a promoção que está rolando AQUI no blog.

11 agosto 2011

Encontrei na escola #2: Um certo capitão Rodrigo por Erico Verissimo

Olá blogueiros!
  A postagem era para ter ido ao ar na semana retrasada mas, por conta de outros livros que chegaram após e durante a leitura, acabei passando outras resenhas à frente. 
                                                       
Título: Um certo capitão Rodrigo
Autor: Erico Verissimo
Editora: Globo (embora a capa seja da Cia. das Letras, que é a edição mais nova e mais facilmente encontrada)
Número de páginas: 224
ISBN: 85-250-0507
Gênero: Literatura brasileira; ficção histórica

Rodrigo Cambará,
impetuoso capitão gaúcho,
desbrava pampas e corações.
É livre como o vento,
e seu heroísmo
deixa marcas na História.
Ainda há heróis no nosso tempo?

   Não é fácil falar sobre Erico Verissimo sem pensar na forma cativante com a qual ele conduz suas histórias. São livros com uma temática simples, sem muitas reviravoltas e que, todavia, ainda assim, emocionam o público e tornam suas personagens únicas. Assim é Rodrigo Cambará, impetuoso capitão gaúcho, desbravador de pampas e corações.

"- Não tem medo de ir para o inferno?
  Rodrigo cruzou as pernas, atirou o busto para trás e recostou-se contra a porta da capela.
- Padre, ouvi dizer que no céu não tem jogo nem bebida nem carreiras nem baile nem mulher. Se é assim, prefiro ir pro inferno."
p. 55

   "Um certo capitão Rodrigo" é um retrato da vida deste homem que ama a liberdade, a farra, a guerra. Um revolucionário que já viu de tudo pelo mundo, já esteve na presença de todo o tipo de mulher e, por acaso, em uma tarde de outubro de 1828, entrou na vida do pacato povoado de Santa Fé, Rio Grande do Sul.
   A história inteira gira em torno da trajetória do capitão após este ter se decidido a parar seu nomadismo de guerreiro, fixando-se naquele humilde lugar. Logo ao início, através do primeiro contato dele com Nicolau e Juvenal Terra, por exemplo, nota-se a apreensão dos habitantes em relação àquele homem calejado e festeiro. Seus modos, como lhe diz Juvenal, não condizem com a vida com a qual aquele povo está acostumado. Ali, em Santa Fé, os homens eram trabalhadores, acordavam antes do raiar do sol para cuidar da lavoura e do gado; as mulheres, por sua vez, eram direitas, dedicadas à família e a seus maridos; as moças jovens, ao contrário das chinas (termo típico da região ao referir-se às mulheres vulgares, da vida, por assim dizer)
   É natural que ao chegar Rodrigo, por sua aparência que beira o atraente aventureiro, as pessoas  permaneçam em dúvida quanto à sua conduta. Logo, entretanto, o homem de modos rudes e também cativantes, acaba por conquistar a simpatia da classe modesta daquele lugar. Ele conquista, incluisve, o coração de Bibiana Terra, virgem moça que até então nunca tinha deixado enamorar-se por um rapaz. Até surgir o capitão, seu capitão. Este, por sua vez, jamais desejara tanto uma mulher quanto ela.
   O tema central de "Um certo capitão Rodrigo" é, principalmente, o desenvolvimento de seu romance com a moçoila submissa, ternamente apaixonada. Rodrigo é, sem sombra de dúvida, uma personagem complexa, que causa adoração e raiva. O leitor certamente sentirá simpatia pelo protagonista, desde seu modo engraçado de se falar, até os momentos nos quais o sangue quente do homem que já viu tantas guerras vinha a todo vapor.
   Bibiana lembra a avó Ana Terra (protagonista de outro volume da mesma trilogia de "Um certo capitão Rodrigo", embora as personagens não tenham um vínculo concreto entre si). É quieta, teimosa e carrega consigo o fardo de amar um homem de coração livre, que nunca pertencerá a alguém além de si mesmo, por mais apaixonado que possa parecer.
   O romance de Verissimo em questão vem com menos poesia e lirismo que em Clarissa, por exemplo, mas a sua marca é incontestável no que diz respeito às personalidades das personagens e à exaltação do estado, não do país. Características regionalistas são altamente visíveis em seu texto. Fala-se de Rio Grande do Sul, de imigração alemã, das Revoluções Farroupilhas que, a propósito, têm papel muito importante em certo ponto da história.
  Por algum motivo que não sei ao certo como explicar, fiquei realmente ligada a esse livro. A leitura fluiu  rapidamente e, apesar de tudo, o desbravador de corações, Rodrigo, soube cativar-me igualmente à colega Bibiana. Um anarquista, ateu e, acima de tudo, amante da vida e dos prazeres da Terra. 
   Não temos aqui o herói brasileiro, porém o herói gaúcho, a marca do povo do Sul. Não temos também o herói romântico, perfeito... Talvez o realista, cheio de defeitos e que encanta por ser, afinal, humano.
   Indico a leitura da obra de Erico Verissimo a todo nativo do Rio Grande do Sul que quer conhecer um pouco mais de sua história. 
   Definindo Rodrigo Cambará em uma frase completamente anarquista...

"Se hay gobierno, soy contra."

  E que venha "Ana Terra".
Avaliação geral:
Nota 4 de 5 (Muito Bom)
  Uma boa noite a todos,



  

07 julho 2011

Encontrei na escola #1 - Lolita, Vladimir Nabokov


Título: Lolita

Título original: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 319
ISBN: ------------
Edição: São Paulo/Rio de Janeiro 2003
Gênero: A classificação do livro é literatura norte-americana, porém, por ter sido escrito primeiramente em russo por um autor russo, classifiquemos justamente como Literatura Russa
Onde comprar: R$17,90 nas Lojas Americanas
“Irreverente e refinado, este é um dos romances mais célebres de todos os tempos. É também uma aventura intelectual que não deixa ninguém indiferente, um relato apaixonado de uma sensualidade alucinada, uma autópsia implacável do modo de vida americano. De um lado, um homem de meia-idade, obsessivo e cínico. De outro, uma garota de doze anos, perversamente ingênua. A química se faz e dá origem a uma obra-prima da literatura do nosso século. Lolita é chocante, desafia tabus, escandaliza. O livro foi incorporado ao imaginário coletivo da modernidade, e até o nome da personagem tornou-se um substantivo corrente, provas do alcance e da genialidade do autor.”

   Tive a ideia de iniciar esta coluna com o intuito de trazer livros clássicos, requeridos aos estudos e facilmente encontrados nas escolas. Acima de tudo, com o intuito de fazer o leitor enxergá-los de outra forma, como a qualquer outro livro contemporâneo.

“E, hoje, só me arrependo de não ter depositado tranquilamente a chave do “342” na portaria e deixado a cidade, o país, o continente, o hemisfério – de fato o globo, naquela mesma noite.”

   Lolita causou muitas polêmicas antes de sequer ser publicado. Lolita era para ser apenas um conto sobre um professor com um distúrbio sexual apaixonado por uma ninfeta de doze anos, uma criança, acima de tudo. Como nos é contado pelo próprio autor, o livro quase não foi publicado, tamanho o seu poder psicológico, as muitas tabus que ele traz...
   Vladimir Nabokov escreveu, acima de todas as coisas, uma obra-prima que nem aos olhos de todos será bem vista. Se você não tiver a mente aberta o suficiente às mais diversas formas de amor (a todas as vertentes deste sentimento), não lhe indico a leitura deste clássico, que provavelmente o chateará muito. Acima de tudo, poderá causar-lhe repugnância e, que lástima seria!
   A primeira vez que tentei ler este livro, se bem me recordo, tinha eu doze anos. Não sabia do que se tratava e comecei mas, logo nas primeiras páginas, horrorizada, com nojo e escandalizada diante de um amor que eu não fora capaz de entender, larguei-o. Imagine você, caro leitor, uma criança de doze anos a tentar ler um volume no qual um Humbert Humbert de meia-idade curvava-se aos encantos de uma criança nínfica de mesma idade que eu? Péssimo, provavelmente. Acho que senti medo.
   Quatro anos mais tarde, após passar por outras obras traumáticas das quais destaco O Perfume, de Patrick Süskind, crendo-me madura o suficiente para enfim compreendê-lo, creio ter feito a escolha correta porque, sinceramente falando, é um livro genial, fantástico! Ao contrário do que eu costumava pensar, ao início da leitura, Humbert Humbert não é frio como o Grenouille de Patrick Süskind, que mata virgens para obter seu aroma e a ninguém tem sentimentos verdadeiros, é um monstro. O nosso protagonista, entretanto, é parte de uma história mais trágica, um homem verdadeiramente apaixonado, louco de amores, perdido em desejo e cego a ponto de fazer qualquer coisa para tê-la, sua Dolores Haze, Lô, Dolly, sua Lolita.
   Mais uma vez, ao início, quase desisti da leitura pela repugnância que o leitor facilmente sentirá aos primeiros capítulos. A descrição cruel das ninfetas, do desejo sujo que o protagonista sente por elas é doentio. Mas a narração de Nabokov é tão, tão boa, tão bem feita que o leitor curioso logo se renderá à história e à vida condenada de H.H.
   Para compreender o que ele sente, é necessário ater-se à sua primeira história de amor. Annabel, a mocinha que conhecera quando jovem e com quem teve um relacionamento infantil que foi crescendo, tornando-se um desejo ardente de menino, desejo este frustrado após serem várias vezes flagrados ou quase flagrados tentando amarem-se, o ponto mais alto de sua paixão. Para desespero de Humbert, a menina morre alguns meses depois de partir de onde morava e o fantasma daquela mocinha, ninfeta aos seus olhos agora adultos, persegue-o por toda a sua vida, sempre insaciavelmente desejando estar com outras que substituam Annabel, com o mesmo viço, a mesma pouca idade, meninas pubescentes.
   Reflexos de sua primeira paixão são retratadas nas primeiras páginas e ele, alcançando a meia-idade, um homem que descreve a si mesmo como atraente, o típico cavalheiro europeu, um vilão de sua aparência, casa-se com uma mulher de sua idade para manter os modos de qualquer homem comum. Valéria, sua primeira esposa, que lhe trai deixando-o cheio de ódio, não por tê-la amado mas por ter seu orgulho ferido, vai embora da França, de Paris, em busca de novos ares, da América, Estados Unidos da América aonde encontrará seu maior demônio, sua paixão quase que reencarnada na mocinha de doze anos na casa da qual foi parar despretensiosamente, Dolores Haze.
   Quando Humbert conhece Lolita logo lembra-se de Annabel. Tudo nela era sua outra mocinha, sua antiga paixão ainda mais viva, mais despudorada e maliciosa. O leitor, ao conhecer esta parte da história, ao vê-lo tentar seduzir a menina de doze anos que anda de soquetes, talvez sinta asco de tal relação. Mas, lendo o livro, conhecendo Lô, notará que a menina não é tão criança ou tão inocente quanto parece. Ela seduz, sente atração pelo homem e age sensualmente quando próxima a ele.

“Frígidas senhoras membros do júri! Eu imaginara que se passariam meses, talvez anos, antes que ousasse expor-me a Dolores Haze; mas às seis ela estava acordada e por volta das seis e quinze éramos tecnicamente amantes. Vou contar-lhes algo muito estranho: foi ela quem me seduziu.”

   Dolores brinca, acima de tudo, de seduzir, de ser mulher e tive verdadeira raiva dela em muitas partes. Após a morte da mãe da menina, com quem Humbert também fora casado para tornar-se o “papai” pretensioso de Lolita, os dois partem juntos em uma viagem pelos Estados Unidos, parando em vários hotéis, motéis e pousadas de estrada sempre por pouco tempo, como pai e filha, atentos a qualquer suspeita vinda de outros de sua verdadeira relação.
    A menina, nesse período, torna-se uma verdadeira insuportável, uma criança estressada, cheia de caprichos e notem, apenas uma criança. A ninfeta que deixara-se ser possuída pelo homem maduro dava-se conta de seu pesadelo, de sua solidão e o leitor passa a ter dó da mocinha desvirginada que se entregara como se fosse uma brincadeira qualquer. E Humbert sabe disso, sente a angústia, a tristeza da menina que ama e da qual não consegue se desvencilhar pelo seu vil desejo. Tornam-se escravos um do outro e como é cruel esta realidade!
   O livro toma fins inesperados pelos quais o leitor torce, anseia, aguarda e até se surpreende. A narração extremamente psicológica mostra um outro lado de H.H., um pedófilo que, acima de tudo, fora um homem apaixonado. Não há como não sentir pena dele em certos momentos, como não compreender seu sentimento complexo à Lolita, que com ele apenas brincou e a quem, acima de tudo, jamais amou.
   Um livro sensual, sim, mas, acima de tudo, sensível que retrata de uma forma assustadora, angustiante, a paixão em seu tom mais agudo e proibido.

Avaliação final:
Nota 5 de 5 (Ótimo)


13 maio 2011

Laços de Família, Clarice Lispector

   Após o Blogger ter saído de ar ontem, tive que passar a postagem para hoje, chateadíssima por ter perdido comentários e atualizações que tinha feito. Uma tremenda palhaçada...

Laços de Família, Clarice Lispector
Editora Rocco
135 páginas
                                                                                                         
Laços de Família, publicado pela primeira vez em 1960, é um tesouro da ourivesaria literária. São treze contos, hoje tidos como clássicos. Entre eles, os festejadíssimos "Amor", "O crime do professor de Matemática", "O búfalo" e "Feliz aniversário", adaptado para a televisão por Ziembinsky. Neles s personagens são sempre surpreendidos por uma modalidade perturbadora do insólito, no meio da banalidade de seus cotidianos. Clarice cria situações onde uma revelação, que desconstrói e ameaça a realidade, desvela a existência e aponta para uma apreensão filosófica da vida. Em Laços de família, Clarice aprofunda sua técnica narrativa em uma abordagem quase fenomenológica. Trata da solidão, a morte, a incomunicabilidade e os abismos da existência através da rotina de dona-de-casa, do mergulho trágico em uma festa familiar nos 89 anos da matriarca, da domesticação da natureza mais selvagem das mulheres, ou dos pequenos crimes cometidos contra a consciência, contra o drama do professor de Matemática diante do abandono e da sacerdotisa da nossa literatura.   Apenas acabo de ler Laços de Família e digamos que ainda esteja absorvendo a leitura, muito confusa, diga-se de passagem.
   Não é o primeiro título que leio de Clarice. Já até indiquei aqui no blog a seleção também da Editora Rocco, De Amor e Amizade - Contos e Crônicas para Jovens , a qual fiz, inclusive, boas alusões, verdadeiros elogios. Entretanto, ao que parece, tive hoje, ao final desta leitura, a minha segunda decepção com Clarice. E foi das grandes.
   Nunca citei aqui o contato que tive com Pulsações – Um Sopro de Vida, pois abandonei-o pela falta de estímulo. Compreendam-me os que não leram livros da autora e até os que leram e apreciam-nos: Clarice é complicada. Simplesmente complicada, beirando à chatice, honestamente falando, e não é por falta de compreensão.
   Laços de Família é uma antologia de contos em relação aos problemas familiares, uma antítese com o título que, na verdade, desprendem os tais laços. São 13 textos e destes 13, eu levo comigo apenas 5, o que é um número consideravelmente insatisfatório em relação às obras cansativas, cheias de mensagens incompreensíveis nas entrelinhas.
   Há de tudo no universo familiar: mulheres loucas - perdoem-me o vocábulo, mas uma mulher que sente nojo de amar e compara isso a uma aranha que tece sua teia no Jardim Botânico é, pelo menos, louca -, homens cismados, crianças astutas, velhos revoltados e todo o tipo de personagens no mínimo estranhas.
   A escrita da autora é extremamente psicológica, ela penetra no íntimo de cada protagonista seu e confunde-nos em meio à rede de pensamentos humanos. Quero dizer, não há problema algum em ressaltar toda a frenética idealização que se passa em nossas mentes, muito pelo contrário, torna a obra mais interessante, profissional. Todas as obras de Machado de Assis do período Realista (o que consagrou o autor), por exemplo, possuem um afloramento emocional muito forte, descrições ímpares de cada ser. Somos arrebatados pelos olhos oblíquos, pelos ciúmes, pelas memórias póstumas e, nem por isso, prolongamos uma leitura curta que acaba tornando-se massante e muito mais longa do que era de se esperar. Discordo completamente dos que neste momento e em outrora disseram que esta é a riqueza do texto de Clarice. Porque não é!
   Muitos valorizam a simplicidade do texto. Confesso que não sou tão amante de tal característica. Aprecio o engajamento do escritor, a estética, a condução de uma obra densa, mas que flui naturalmente. E isso, peço desculpas aos fãs ou aos que acham que são fãs, esse sentimento real e pulsante, falta na autora que considerou-se – agora compreendo – uma pergunta. Indecifrável para mim.

Amor, p. 26
“Ela amava o mundo, amava o que fora criado – amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a.”

   O trecho acima, para bom entendedor, basta toda a minha resenha.

Nota: 2 - Regular (de 5)
Contos dos quais gostei: Feliz Aniversário; Preciosidade; Os Laços de Família, Começos de uma Fortuna; Mistério em São Cristóvão.