12 dezembro 2010

À toa

   Quem me conhece, logo percebe que este é o meu dia favorito. Literatura! E fechamos a semana com um texto meu que escrevi especialmente para vocês. Peço alguns minutos e um pouco da paciência de cada um de vocês, pois garanto que deve valer a pena.


By Lenko, from Weheartit.com

   Tudo se foi e me dói saber que tudo, no fundo, sempre foi nada. Nunca houve fundo, nunca houve tudo. Foi sempre assim, as palavras ao vento, os sons ecoando em túneis supostamente infinitos, o vazio que não machuca, mas que insiste em me atravessar quando paro para observar o mundo em torno de mim.

   Passamos a vida inteira buscando uma razão para prosseguir com nossos caminhos, para continuarmos idealizando os tantos sonhos dos quais não vamos atrás, pois muito antes disso, eles já nos encontram. Esses sonhos vãos, desejos que fluem em nossas mentes, utopias que a tal da felicidade planta em nossas almas. Chega então o dia no qual nos decepcionamos, os porquês se transformam, abandonam-nos ao vento e eu entristeço ao encarar tamanho vazio. O nada é incerto, é sombrio e vive caminhando ao meu lado, já acolhido ao meu espírito como um velho amigo.
   Eu trabalho por nada, ou por dinheiro, o que é bem parecido. Volto para casa, pois é a coisa mais correta que tenho a fazer, como todos os outros fazem ou gostariam de o poder. Caminho um pouco pelas ruas em busca da realização material. Compro algumas peças de roupa que me são confortáveis, vistosas e, vez ou outra, bonitas, para alimentar a minha vaidade. Outra farsante. Vou então à lojinha da esquina aonde adquiro, vez ou outra, novas canecas para a minha finita coleção. Corro até a livraria, pois está já irá fechar, e por fim, vejo-me em paz ao lado daqueles tantos livros nos quais, muitas vezes sem sequer me dar conta, deixei fragmentos de minha alma, agora uma senhora desfigurada e vazia. À toa.
   Volto para casa e sofro silenciosamente tomando meu chá com limão na calada da noite. Escrevo alguns artigos para o jornal e demoro algumas horas para dormir, sofro de insônia. Acordo no dia seguinte com dor de cabeça, tomo algum comprimido para aliviar a sensação e saio atrasada para o meu trabalho. O ciclo é vicioso, é doentio... Neste processo de ir e vir sem razão eu vou me perdendo de mim mesma, entrando para o teatro da vida, cumprindo minha função de atriz e assistindo à farsa dos outros em minha volta.  
  Não dir-lhes-ei que não vivo, meus caros. Pois bem vivo. Tenho todas as coisas que uma jovem idealiza para sua vida. Sou bem empregada, moro em um apartamento consideravelmente confortável, tenho família, não sofri quaisquer traumas durante meu percurso de 23 anos, sorrio de vez em quando para manter as aparências, acho graça em piadas, falo quando me é conveniente, leio assiduamente, bebo de vez em quando, envolvo-me em relacionamentos, mantenho minha vida amorosa sem qualquer amor... Faço, ajo, prossigo e quanto mais faço, ajo e prossigo, deixo de ser. Esvaio-me de mim como a areia que escapa pelas fendas entre meus dedos. Todavia, hoje, hoje eu decidi ir atrás de mim, da minha essência que sei que algum dia existiu antes que nada mais exista. E o nada também vem se cansando de mim.
  Corro às gavetas de minha cômoda em busca de algo, de mim, de tudo que tem se ausentado. Percorro páginas furiosamente, resmas que me remetem a algum sentimentalismo meramente literário. Descubro-me quando adolescente, quando criança, quando neném nas fotos deixadas por minha mãe, agora tão longe de mim, em outra parte do país. Estou em um apartamento na Liberdade, uma entre milhões de São Paulo e continuo perdida, existindo de maneira tão vã. Os álbuns não ajudam, os diários são engraçados, as folhas são rascunhos, as cartas estão velhas e nada me trazem, os livros apenas me distraem, sugam-me.
   Saio correndo pelas ruas ornamentadas do bairro. É noite e todos voltam cansados de seus empregos. Os comércios japoneses estão fechando. Lágrimas escorrem dos meus olhos castanhos, nunca tão impessoais como antes. Uma profunda tristeza me dilacera, um medo brutal de tornar-me um número, de não ser mais Valquíria, como minha mãe quis que eu fosse um dia.
   Chego à estação da Liberdade e sento-me em um dos bancos com as mãos no rosto vermelho. Observo as pessoas irem e virem freneticamente, todos tão unidos e tão sozinhos ao mesmo tempo. Estou desolada, sem saída. Sinto medo, vazio. Nada.
- VALQUÍRIA! Ei, Val! - Ouço uma voz conhecida, um som nostálgico que me assalta com uma fervura desconhecida.
   Ergo a cabeça e olho ao meu redor, procura de onde ecoa o som, de qual daquelas inúmeras cabeças e o encontro. Uma nova onda me invade. O calor é uma sensação que me traz uma onda de mim mesma. Eu lembro daquele rosto. Lembro de Eduardo, minha paixão de colegial, meu amigo ao qual tantas vezes eu esqueci de dar o devido valor. O rapaz que me oferecia o ombro acolhedor quando algum dos meus namorados idiotas beijava outra menina na minha frente ou simplesmente me decepcionava. Lembro-me de como fui rude e de quantas vezes pedi para que ele fosse embora quando confessou seu amor por mim e me beijou à força . Eduardo foi embora magoado, mas ainda insistiu em vir atrás de mim. Até o último dia de nossas aulas, no terceiro ano, quando tudo mudou, quando as nossas vidas descompromissadas deram seu último adeus. Lembro-me do quanto chorei quando descobri que aquele rapaz que eu mandara, uma vez sair da minha vida, deixara-me tão loucamente apaixonada por ele que despejara os mesmos sentimentos em mim. Ainda nos encontramos na faculdade, através de um amigo, há dois anos atrás, mas foi tudo muito estranho, muito rápido e sem perspectiva de continuidade. Pedi para aquele amigo que nunca mais me fizesse encontrar com o rapaz, pois tínhamos uma história findada de maneira desagradável. Ele aquiesceu e mais tarde tornou-se meu namorado. Namorico desses que duram pouco e que, contudo, foi o suficiente para levar a lembrança de Edu de minha vida. Desde então, não mais o vi nesta cidade enorme e, repentinamente, a vida que vem se esvaindo de mim oferece-me o sentimento mais puro e verdadeiro que já existiu e continuou por todos esses anos a existir na pessoa que eu há tanto venho procurando.
- Eduardo! - Abracei-o com todas as minhas forças, sem qualquer ato automático. Com uma vontade que surtiu e brotou do meu coração pulsante e acelerado. Assim como as lágrimas, agora de felicidade. Entendendo que o que existiu e continuava a existir entre nós era algo natural, forte e sincero, e que, uma hora ou outra, acabaria por nos lembrar de sua existência e nos uniria tão desesperadamente, como naquele momento em que nossos braços procuravam-se na noite abafada de São Paulo, sob o ar impuro e ainda assim, tão mais fácil de respirar.
   Eduardo largou tudo. Largou sua pasta do trabalho, seu café puro pelando, suas chaves de casa, seu bilhete do metrô, seus últimos dois anos como se toda a sua vida começasse naquele instante.
- Valquíria – Ele segurou meu rosto entre suas mãos, beijando cada parte dele sem dizer-me nada. - Por onde você esteve?
- Sabe que nem eu sei? - Ri pela primeira vez, abandonando o nada, a solidão e o vazio. Segurando com toda a minha adoração o amor do homem que não se esvairá tão facilmente de minhas mãos. E observando enquanto a vida atoa minha antiga existência à toa.

Ps.: Quis fazer um trocadilho entre a expressão à toa e a forma no presente do verbo atoar, que significa levar a reboque. Espero que gostem,
Sua em estima,

8 comentários:

planeta huumor disse...

nossa rxto mt bom parabens pelo blog

http://planetahuumor.blogspot.com/

carol disse...

nussaa! que conto!! vc escreve muito bem, parabéns1 *O*
e amei o blog. mt lindo1 *O*
bjs
http://oicarolina.wordpress.com/

Mr. Rïver disse...

Parabéns pelo blog! Muito bom esse texto ; )

S.Rïver
Porto Velho/RO - AmazôniA - BRASIL
http://www.youtube.com/riuhpvh

Flor de Liz disse...

Eu simplesmente me perdi lendo seu texto.
Sabe, geralmente eu não tenho tempo para blogar, são raros os blogs com textos grandes como este que eu realmente paro para ler, e a falta de tempo é o maior dos motivos para isso, o que me leva a sair de muitos blogs bons sem aproveitar, já que sou totalmente contra o que muitas pessoas fazem: comentam sem ler querendo em troca apenas um comentario.
Comecei a ler seu texto e ele me consumiu. Fiquei por vários minutos lendo e me perdi.
Você tá de parabéns, ficou ótimo!
Adorei seu blog, ou melhor, o blog de vocês!
Você escreve perfeitamente bem Ana :D
Assim que der, com certeza, estarei de volta.
Beijos e obrigada pelo comentário em meu blog :)

Kiko Lemos disse...

Uma mistura de conto e texto dissertativo que acaba sendo instigante, realmete gostei.

A.D. disse...

Muito bom o texto
Parabéns pelo blog
Mto bem arrumado e ta lindo viu ;D
se puder comentar no meu depois... :D

Mayara disse...

Achei que escreves muito bem!
E adorei sua brincadeira no final, com o à toa e atoa. Ficou bem legal.
Seu blog está lindo, assim como seu texto... Geralmente sempre despensamos o cara certo, mas exatamente por esse motivo o reencontramos, hihi.
Muito muito lindo, parabéns!

Ana Ferreira disse...

Muito obrigada a todos, de verdade.
:)