24 março 2011

Leia mais: Crônicas (II)

   Ainda na semana passada falávamos sobre crônicas e hoje resolvi dar continuidade ao assunto por um motivo simples, uma crônica maravilhosa escrita por Vicente Cascione, um advogado conceituadíssimo que, inclusive, defende a Uniban no caso Geisy Arruda, e é cronista semanal da AT Revista, do Jornal A Tribuna de Santos, que merece o prestígio de todos vocês.

   MEU AMOR
por Vicente Cascione, domingo, 3 de outubro de 2010
 "E que se tivesse de voltar no tempo, você me daria a mão outra vez, e seguiríamos juntos. E se fosse assim, eu teria ficado à margem do caminho". (Fragmento de uma crônica escrita para Silvia em 20/12/1981, aos 22 anos de um amor para sempre).
   Eu era um adolescente de 17 anos. Ela ia completar 12, quando veio de longe, com sua família, para morar num sobrado vizinho à minha casa de infância. No dia da mudança, eu a contemplei além do muro dos nossos quintais. Surpreendida, diante de meu olhar extasiado naquele momento sublime, minha mãe perguntou-me como uma menina-criança-desconhecida, conseguia despertar em mim o sentimento que eu não conseguia esconder.
   Comovido com a absoluta certeza apenas explicável além da restrita condição humana, respondi: "Mãe, eu vou me casar com essa menina".
   E assim começou uma vida para sempre, desde o namoro imediato, considerado absurdo, por causa de nossas idades, até o instante desta dor indizível, em que ela partiu sem dizer adeus.
   Nestas minhas incontáveis crônicas de domingo, já escrevi sobre todas as minhas saudades, dores, desesperanças e amarguras. Revelei os rotineiros tormentos deste cronista sentimental, observador das coisas do seu tempo, do seu mundo e da vida.
   Mas nunca imaginei que houvesse uma dor capaz de doer tanto. Uma saudade que não consente um instante de alívio, uma ausência que semeia infinitos vazios em todos os espaços, uma falta que faz insuportável a passagem do tempo, um sentimento de que perdi o único lado bom de minha alma e de meu corpo, esses restos mortais em que eu subsisto depois que minha mulher, tão amada, levou com ela todas as partes vivas do meu ser.
  Sinto que talvez sobreviver seja possível somente à custa de um milagre indesejável capaz de permitir que uma dor letal e absoluta coexista com a própria vida. Milagre indesejável cometido por esse despótico destino que me concedeu a felicidade, durante meio século de minha vida, mas que, por ter-me dado tanto, ou tudo, impôs-me a compensação de tornar-me submisso a uma dor e a uma saudade, sob cujo sofrimento parece-me ser impossível resistir.
   Creio ter adivinhado o inacreditável momento do desencontro, quando escrevi a crônica antecedente ao dia em que ela partiu: "Muita vez, apesar das distâncias que se abriram, das ausências que se consumaram, das fugas e dos abandonos... há um sentimento para sempre marcado a ferro e fogo no tempo passado, sobre a pele de nossa vidas. Há uma saudade, aparentemente sem sentido, a arder em algum canto de nossa alma. Uma lágrima que volta, teimosamente, nos olhos que não ficarão enxutos até o fim dessa estrada. Um soluço contido, uma dor secreta, uma falta vital, uma doce lembrança de instantes vividos, uma memória trágica a coexistir com esperanças mortas, uma doce amargura nos recônditos de corações exaustos.
   Talvez fosse minha derradeira confissão deste amor infinito. Talvez fosse o adeus irresignado. Talvez fosse o derradeiro beijo. O último olhar. A ânsia de voltar a ver Silvia além do muro do passado, e de recomeçarmos, outra vez, ali, desde crianças, a nossa vida.
   Minha amada. Você me entregou seu amor absoluto, eterno e calmo. Fez-me ser o que sou e me conduziu sempre ao meu destino, com sua coragem, seu caráter, sua sabedoria, sua têmpera, sua simplicidade, sua pureza e sua bondade.
   Por isso, semeou, também, uma família unida e feliz.
   Agora, perdido de mim mesmo, procuro suas mãos. E sinto que, sem elas, inevitavelmente, eu ficarei à margem do caminho...

A jornalista Sílvia do Leme Cascione faleceu aos 62 anos, no dia 23 de setembro de 2010, tendo sido vítima de atropelamento.

9 comentários:

hrdoblush disse...

adoreei o texto.
eu realmente preciso de mais crônicas
rs
bjoo amor

http://www.hrdoblush.com/

hrdoblush disse...

to seguindo viu?

http://www.hrdoblush.com/

Raphaela disse...

A cronica é muito linda mesmo,merece os creditos.

Ana, vc que gosta muito de escrever e talz, eu recomendo o site do Edson, onde ele escreve várias cronicas do mundo feminino. É maravilhoso!

http://www.toquesparamulheres.com/

Xêro! :*

Gabriele Santos disse...

lindo,. lindo. Amei demais.
Adorei a iniciativa de nos conduzir por este maravilhoso mundo das crônicas.
Parabéns Ana.
E ao vicente também que nos preencheu com um texto tão belo

Entre Fatos & Livros disse...

Não são de muitas crônicas que eu gosto. Vivo uma relação de amor e ódio com elas. Eu amei essa!

BjoO
Pri
Entre Fatos e Livros

RaissaDebora disse...

nossa eu adoro cronicas!
elas sao rapidas, completas, muitas vezes sem fim fechado, oq da todo o toque especial
^^

ja estou seguindo hein?! :D
bjus
letracomasa.blogspot.com

Bruna Tenório disse...

Nossa, que incrível! Essa diferença de idade me fez lembrar do meu namoro, haha

Robledo Filho disse...

JURO pra você que senti um arrepio quando li o finalzinho, que revela que a jornalista foi atropelada. Não sei se li a crônica com pressa, mas, ao desenrolar do texto, tive puramente a impressão de que a tal amada houvesse se mudado, saído da cidade para nunca mais voltar. Nem por um segundo passou pela minha cabeça que ela tivesse morrido.

Linda crônica! Acho fantástica essa habilidade de coadunar sentimento e razão, de forma a conseguir transmitir através de palavras uma dor inicialmente inefável. Sinto-me até mal pelo jornalista, agora...

=*
http://livrosletrasemetas.blogspot.com/

Ana Ferreira disse...

Esta crônica é realmente linda e reflete uma situação extremamente triste.

Rapha, obrigada pela dica. Já tinha visitado o site antes e me diverti com as crônicas extremamente sinceras.

Robledo, também fiquei muito sensibilizada e arrepiada por uma separação tão dolorosa e triste.
O amor que Cascione nos passa é tamanho que chega a doer.