03 abril 2011

03
abr
2011

A Cidade do Sol, Khaled Hosseini - Um Olhar ao Oriente

   Alterando um pouco a ordem dos fatores, iniciamos a semana com uma resenha sobre um livro que muitos já leram, embora TODOS devam ler.



A Cidade do Sol - Khaled Hosseini
Editora Nova Fronteira
368 páginas
Na cotação custa de R$15,90 a R$39,90

"Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rashid, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz: "Você pode ser tudo o que quiser." Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos. Mas as pessoas não controlam seus destinos. Confrontadas pela História, o que parecia impossível acontece: Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a História continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do "todo humano", somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios. "

   Duas mulheres, duas vidas que se cruzam em um momento de desgraça. Uma história de tristeza, de forças sobre-humanas, de resistências a dores inimagináveis.
   Somos apresentadas a um Afeganistão extremamente conversador que, em sua maioria, priva a mulher de tudo. TUDO mesmo. A mulher afegã, no fim do século XX, não tem direito de pensar, de argumentar, de olhar nos olhos de outros homens, de sorrir abertamente, de decidir por seu futuro. Não estuda, não influencia, não anda sozinha, não vive. Existe simplesmente. E que péssima existência...
   Aos 15 anos uma tragédia (de muitas) se abate sobre a vida de Mariam, que é entregue ao pai a Rashid, agora seu marido, 30 anos mais velho. Mariam, porém, deixa rapidamente de ser sua esposa para tornar-se sua empregada. Cozinha, limpa, satisfaz os desejos do homem e apanha. Apanha no silêncio, como se não tivesse emoções, emoções que ficam escondidas em uma burqa, seu resguardo, seu recinto que a oculta do mundo.
   Os anos passam, as facções continuam em guerrilhas, bombardeios são lançados a Cabul, sua cidade. Até que, aos seus 33 anos, após tanto caminharem paralelamente, uma jovem Laila de 14 anos e com uma concepção de mundo totalmente diferente, também caída em desgraça, é colocada em sua vida sem saber que a mudaria para sempre.
   Khaled Hosseini conduz seu romance com vocábulos simples, mas com uma trama tocante, nobre, desperta emoções loucas em seu leitor. Nós sofremos com Mariam e Laila, horrorizamo-nos ao ver como podem ser tão submissas, de onde arranjam tantas forças para sobreviver ao inferno permanente em que vivem. Nunca me senti tão privilegiada por nascer em um país livre, nunca amei tanto a liberdade e nunca tive tanta compaixão pelas histórias destas mulheres como Mariam e Laila que, por mais fictícas sejam, são retratos de alguma realidade distante. O livro nos leva a darmos um olhar cuidadoso ao Afeganistão e a seus moradores, às lacunas de sua história manchada de sangue e violência. E, por mais que as coisas estejam mudando atualmente, ainda pode se ouvir um grito de dor nas alamedas da nação, um grito que nunca ouvira antes.
   Uma verdadeira obra, um olhar ao oriente guiado pela visão de um autor que conduziu maestralmente o enredo de seu belíssimo livro.

   " Em cada picape, os alto-falantes transmitiam um comunicado, aos brados, primeiro em farsi, depois em pashto. A mesma mensagem era veiculada por alto-falantes instalados no alto das mesquitas e também pela rádio agora denominada "A Voz da Shari'a". Texto idêntico podia ainda ser visto em panfletos lançados pelas ruas da cidade. Mariam achou um destes no quintal.
    Nosso watan chama-se agora Emirado Islâmico do Afeganistão. Eis as leis que começam a vigorar e às quais todos devem obedecer:
- Todos os cidadãos devem rezar cinco vezes ao dia. Quem for apanhado fazendo outra coisa nas horas de oração, será espancado.
- Todos os homens deverão deixar crescer a barba. O comprimento correto é pelo menos um punho fechado abaixo do queixo. Quem não cumprir essa determinação, será espancado.

- Todos os meninos devem usar turbante. Os estudantes da primeira à sexta série usarão turbantes negros, os alunos das séries superiores usarão turbantes brancos.
- Todos deverão usar trajes islâmicos. O colarinho das camisas deve ser abotoado.
- E proibido cantar.
- É proibido dançar.
- É proibido jogar cartas, jogar xadrez, fazer apostas e soltar pipas. 
- É proibido escrever livros, ver filmes e pintar quadros.
- Quem possuir periquitos será espancado, e os pássaros, mortos.
- Quem roubar terá a mão direita cortada na altura do pulso. Quem voltar a roubar terá um pé decepado.     
- Quem não é muçulmano não pode realizar seu culto em lugar onde possa ser visto por muçulmanos. Quem fizer isso, será espancado e detido.
- Quem for apanhado tentando converter um muçulmano à sua fé será executado.
 Atenção mulheres:
- Vocês deverão permanecer em casa. Não é adequado uma mulher circular pelas ruas sem estar indo a um local determinado. Quem sair de casa deverá se fazer acompanhar de um mahram, um parente de sexo masculino. A mulher que for apanhada sozinha na rua será espancada e mandada de volta para casa.
- Vocês não deverão mostrar o rosto em circunstância alguma.
- Sempre que saírem à rua, deverão usar a burqa. A mulher que não fizer isso será severamente espancada. - Estão proibidos os cosméticos.
- Estão proibidas as jóias.
- Vocês não deverão usar roupas atraentes.
- Só deverão falar quando alguém lhes dirigir a palavra.
- Não deverão olhar um homem nos olhos.
- Não deverão rir em público. A mulher que fizer isso será espancada.
- Não deverão pintar as unhas. A mulher que fizer isso perderá um dedo.
- As meninas estão proibidas de freqüentar a escola. Todas as escolas femininas serão imediatamente fechadas.
- As mulheres estão proibidas de trabalhar.
- A mulher que for culpada de adultério será apedrejada até a morte. Ouçam. Ouçam bem. Obedeçam. Allah-u-akbar. "
p. 193