13 maio 2011

Laços de Família, Clarice Lispector

   Após o Blogger ter saído de ar ontem, tive que passar a postagem para hoje, chateadíssima por ter perdido comentários e atualizações que tinha feito. Uma tremenda palhaçada...

Laços de Família, Clarice Lispector
Editora Rocco
135 páginas
                                                                                                         
Laços de Família, publicado pela primeira vez em 1960, é um tesouro da ourivesaria literária. São treze contos, hoje tidos como clássicos. Entre eles, os festejadíssimos "Amor", "O crime do professor de Matemática", "O búfalo" e "Feliz aniversário", adaptado para a televisão por Ziembinsky. Neles s personagens são sempre surpreendidos por uma modalidade perturbadora do insólito, no meio da banalidade de seus cotidianos. Clarice cria situações onde uma revelação, que desconstrói e ameaça a realidade, desvela a existência e aponta para uma apreensão filosófica da vida. Em Laços de família, Clarice aprofunda sua técnica narrativa em uma abordagem quase fenomenológica. Trata da solidão, a morte, a incomunicabilidade e os abismos da existência através da rotina de dona-de-casa, do mergulho trágico em uma festa familiar nos 89 anos da matriarca, da domesticação da natureza mais selvagem das mulheres, ou dos pequenos crimes cometidos contra a consciência, contra o drama do professor de Matemática diante do abandono e da sacerdotisa da nossa literatura.   Apenas acabo de ler Laços de Família e digamos que ainda esteja absorvendo a leitura, muito confusa, diga-se de passagem.
   Não é o primeiro título que leio de Clarice. Já até indiquei aqui no blog a seleção também da Editora Rocco, De Amor e Amizade - Contos e Crônicas para Jovens , a qual fiz, inclusive, boas alusões, verdadeiros elogios. Entretanto, ao que parece, tive hoje, ao final desta leitura, a minha segunda decepção com Clarice. E foi das grandes.
   Nunca citei aqui o contato que tive com Pulsações – Um Sopro de Vida, pois abandonei-o pela falta de estímulo. Compreendam-me os que não leram livros da autora e até os que leram e apreciam-nos: Clarice é complicada. Simplesmente complicada, beirando à chatice, honestamente falando, e não é por falta de compreensão.
   Laços de Família é uma antologia de contos em relação aos problemas familiares, uma antítese com o título que, na verdade, desprendem os tais laços. São 13 textos e destes 13, eu levo comigo apenas 5, o que é um número consideravelmente insatisfatório em relação às obras cansativas, cheias de mensagens incompreensíveis nas entrelinhas.
   Há de tudo no universo familiar: mulheres loucas - perdoem-me o vocábulo, mas uma mulher que sente nojo de amar e compara isso a uma aranha que tece sua teia no Jardim Botânico é, pelo menos, louca -, homens cismados, crianças astutas, velhos revoltados e todo o tipo de personagens no mínimo estranhas.
   A escrita da autora é extremamente psicológica, ela penetra no íntimo de cada protagonista seu e confunde-nos em meio à rede de pensamentos humanos. Quero dizer, não há problema algum em ressaltar toda a frenética idealização que se passa em nossas mentes, muito pelo contrário, torna a obra mais interessante, profissional. Todas as obras de Machado de Assis do período Realista (o que consagrou o autor), por exemplo, possuem um afloramento emocional muito forte, descrições ímpares de cada ser. Somos arrebatados pelos olhos oblíquos, pelos ciúmes, pelas memórias póstumas e, nem por isso, prolongamos uma leitura curta que acaba tornando-se massante e muito mais longa do que era de se esperar. Discordo completamente dos que neste momento e em outrora disseram que esta é a riqueza do texto de Clarice. Porque não é!
   Muitos valorizam a simplicidade do texto. Confesso que não sou tão amante de tal característica. Aprecio o engajamento do escritor, a estética, a condução de uma obra densa, mas que flui naturalmente. E isso, peço desculpas aos fãs ou aos que acham que são fãs, esse sentimento real e pulsante, falta na autora que considerou-se – agora compreendo – uma pergunta. Indecifrável para mim.

Amor, p. 26
“Ela amava o mundo, amava o que fora criado – amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a.”

   O trecho acima, para bom entendedor, basta toda a minha resenha.

Nota: 2 - Regular (de 5)
Contos dos quais gostei: Feliz Aniversário; Preciosidade; Os Laços de Família, Começos de uma Fortuna; Mistério em São Cristóvão.


7 comentários:

Babi Lorentz disse...

Sempre tive interesse em ler Clarice por causa de todas aquelas citações lindíssimas que sempre encontramos pela internet afora, mas quando peguei um livro dela (não me lembro qual) tive grande decepção ao ver que ela não era tudo aquilo que eu imaginava que seria. Complicado, né? =/
Beijão

Bruno. disse...

acho Clarice muito triste pro meu gosto... digo, ela é uma ótima autora e possui frases memoráveis... mas não sei.

beijos & abraços, Bruno.
World Of Carol Espilotro

Tarsila Rodrigues disse...

Minha cara Ana,
Clarice uma vez disse sobre sua obra: Ou toca ou não toca.
Fico triste que você não tenha sido contemplada com seu toque, porque os que a amam a sentiram em seu cerne e a amam profundamente.
Espero que você não tenha achado que lhe fiz um crítica no outro comentário, é que como eu fui TOCADA, não sou capaz de conceber outra forma...
Não consigo abstrair a possibilidade de lê-la e não amá-la.
Mas com certeza darei uma chance a sua amada Lygia.
Abraço,
Tarsila

Tarsila Rodrigues disse...

Ah, e sobre as pessoas que "acham que são fãs", eu as conheço, são pessoas que só leram trechos dELA...
Ler um romance é algo totalmente diferente. Eu não amo ELA por modismo, tanto é que li A Hora da Estrela e digo abertamente que não me cativou, embora hoje considere que li o livro com o pensamento errado. ELA é para mim o que nenhum "intocado" conseguiria entender, ELA já me fez chorar simplesmente pela força de uma indentificação que senti, por saber o que eu estava sentindo, mas não sabia sentir em palavras.
Abraço,
Tarsila

Robledo Filho disse...

Concordo plenamente com a sua linha de pensamento, Ana. Você sabe que, assim como você, eu sou um grande apreciador dos autores que possuem um estilo mais lento, que desnudam psicologicamente suas personagens, que são capazes de provocar um sentimento inegável de autorreconhecimento. Como eu já vi várias pessoas falando muitíssimo bem da Clarice, dizendo que ela aborda seus temas com uma precisão sentimental quase inexplicável, fiquei ansiosíssimo por me aproximar da obra da autora e, assim que possível, peguei emprestado o livro "A Paixão segundo GH". Assim como você, eu me decepcionei.

Eu estava discutindo isso com a Tarsila por MSN um dia desses, e lembro de ter dito o seguinte: apenas metade do discurso da Clarice é inteligível. Não que ela escreva 100 frases e apenas as 50 primeiras sejam passíveis de entendimento - o que quero dizer é que a impressão que tenho é que, a cada construção filosófica dela, ela fornece ao leitor apenas metade do raciocínio, cabendo a ele desenvolver o pensamento até o final. E isso, desculpem-me os fãs da autora, é terrível. Quero uma leitura profunda, tocante, sentimental... mas inteligível! Não quero um livro que, de tanto oscilar entre o palpável e o imaginário-filosófico, acaba se tornando indecifrável.

=*
Livros, Letras e Metas

Leeh M. disse...

Nunca li nenhum livro de Clarice, e nunca tive vontade. E agora, sabendo que é complicado, é que não leio mesmooo. Tomara que no colégio nenhum professor me faça ler algo assim ou parecido...

Beijooos!

Leeh M.
Pensamentos de Garotas Incomuns...

Gabriele Santos disse...

eu já li o clássico 'A hora da Estrela" e comecei a ler laços de familia, mas tive que parar para ler um lugar ao sol de Erico Verrissimo para um trabalho do colégio.
Eu concordo com você que é bom ter uma construção pscológica dos personagens, apesar de eu não ser muito fã, gosto das coisas simples e claras feito água (rsrsr), mas realmente Clarice é uma grande interrogação.
Daí eu percebi que: Clarice é uma belissima autora, mas de trechos. É isso mesmo. esses trechos que a gente acha por aí na net. Pegue uma obra inteira e é provável que você odeie ela, mas pegue só os trechos que só assim é possível conhecê-la. Afinal a outra parte do discurso dela creio que seja inintelígivel para nós, pobres mortais (e normais).
aushuashuashuha
a mulher é um gênio, mas nada normal. rsrsrsrs