02 maio 2011

Um Amor Qualquer

   Olá blogueiros!
   Hoje, trago aqui o meu conto da quinzena. Quem sentiu falta dessa coluna, heim?
   Espero que gostem, uma boa leitura! E sim, os textos são meus, caso queira copiá-los, por favor não o faça sem antes me avisar!

Um Amor Qualquer

- Marília?

   Olhou-se longamente no espelho e encarou o rosto triste do qual uma lágrima solitária escorria, de um coração jovem que padecia em dor. Demorou a responder o telefonema.
   Acorda cansada naquele domingo, com uma enxaqueca tremenda das memórias da noite mal dormida, do rosto lacrimoso do sonho que se olhava no espelho. Eram lembranças de um tempo esquecido do qual ela nunca se lembrara tão bem, de momentos felizes que nunca lhe tinham sido tão tristes.
- Marília, você está aí?
   Ela acabara de sair do banho. Estava realizada pela promoção no emprego. Estava contente com o encontro que acabara de ter no bar da esquina. Levava uma vida tranquila e plena e, de repente, via-se fraquejar diante uma paixonite que ficara à mercê dos últimos dois anos.
- Marília, eu sinto muito. - A voz dele era a mesma. Tão bonita, tão musical. O rosto de Marília de repente se contraiu em uma máscara de nostalgia e tristeza.
- Olá, Diego.
- Você está tão... Quieta. O que aconteceu?
   "Você sumiu nos últimos dois anos, lembra-se disso? Embarcou num avião e me avisou apenas uma semana antes de que iria estudar fora".
-  É nada... Eu estou bem. Impressão sua. Como foi a viagem?
- Ótima, a Inglaterra é esplêndida, você precisa conhecer a terra da Rainha!
- É...
   Passou a mão pelos cabelos enquanto encarava a imagem no espelho e lembrava do toque delicado dele. Os olhos esverdeados que o rapaz tantas vezes elogiara. O rosto de formato afinado, bonito e ousado. Diziam refletir sua tempestuosidade, seu temperamento intenso que repentinamente reduzia-se a uma fraqueza apaixonada que há muito não a atingia. Quase que uma dor palpável, um amor não resolvido.
- Eu lhe disse que voltaria, Marília. Eu não estava mentindo.
- E voltou, não é? Já notei.
- Desculpe-me... Eu só queria poder ouvir a sua voz novamente, eu só queria poder te ver, eu só queria ter certeza de que esse meu coração bate descompassado pela mesma paixão que existia.
- Por favor, esqueça.
- Tudo menos isso.
- O que você quer? - A voz estava baixa, o choro já era notável do outro lado da linha. Ele sabia. Ele sentia.
- Eu quero ver você. Amanhã. No parque, na mesma árvore de sempre à meia-noite.
   Marília não respondeu, apenas desligou o telefone e ficou encarando o nada enquanto as lágrimas escorriam descontroladamente pelas maçãs, enquanto seu corpo deslizava para baixo nas paredes geladas de uma noite de inverno na qual sua maior paixão a ligava pedindo para vê-la no lugar de sempre.
   Enquanto levanta da cama, seus olhos percorrem o apartamento pequeno e de repente este está cheio da presença dele. Das roupas jogadas pelo piso, do cheiro embriagador da comida apimentada de sábado, do riso aveludado que ecoava pelos corredores apertados nos quais seu imenso amor fazia-se real, fazia-se ferro e fogo, corpo e alma, a consumação do que ardia dentro deles cada dia mais fortemente.
   Namoravam e davam-se muito bem, eram jovens, tinham planos. Ele, planos que ela desconhecia. Ela, utopias que ele não poderia realizar. Ele foi para a Inglaterra, ganhou uma bolsa de estudos, mas disse que voltaria e pediu que ela esperasse. Ela brigou com ele, jogou fora o urso de pelúcia que numa ocasião lhe dera e chorou a semana inteira. Depois voltou à faculdade, encontrou um estágio, voltou a sair à noite, beijou outros homens e até namorou. Porém nada durava, nada tinha a mesma paixão e ela não dormia uma única noite sem se perguntar o porquê. O porquê, um telefonema a tinha explicado e aquela ferida, que se ocultava e penetrava no negrume das noites de insônia tinha sido aberta sem piedade, sangrava e doía. Como doía.
   Marília sai para trabalhar distraída. A nada se atém, acha que todos os homens na rua são Diego, mal pode pensar no encontro, no telefone em suas mãos e nas lágrimas no rosto da moça do espelho que suas mãos tremem, seu interior arde e seu corpo sua frio.
   As horas passam. Duas, quatro, sete, oito e o fim do expediente.
   Ela está eufórica, vai para casa ansiosa e sente o extremo pavor de não ser a mesma pelo qual ele se apaixonara. Encara-se no espelho, arruma os cabelos. Bagunça, prende, solta, alisa, encaracola. Quase vai até a farmácia comprar uma tinta para mudar a cor dos cabelos e quando chega à conclusão de que tudo aquilo é ridículo, deita no chão de madeira e encara o vácuo com medo de reencontrar seu passado.
   Traja um vestido preto e um sobretudo da mesma cor. Põe um sapato de salto. Os cabelos claros estão soltos, um pouco emaranhados sobre as golas das vestes. Um vento frio bate da janela frontal e ela encosta-se na beirada do sofá solitária. Esfrega as mãos enquanto aguarda silenciosamente e fita os ponteiros do relógio a correr.
   Onze horas e meia da noite. Marília senta-se para assistir a um programa qualquer de televisão. Onze horas e quarenta e cinco minutos. Marília lembra-se do dia em que conheceu Diego e sente-se apaixonada, corre até a porta e decide ir até ele. Onze horas e cinquenta. Ela lembra-se do dia no qual ele a disse que tinha ganhado a bolsa e iria embora, dá meia volta e senta-se novamente, não liga a televisão desta vez. Meia-noite em ponto, está chorando e já tirou os sapatos. Meia-noite e meia ela vai se deitar, toma um remédio para dormir e aguarda.
   A uma e meia tem um pesadelo e acorda gritando. Sai correndo descalça pelas ruas, pisando no orvalho até chegar ao parque. Chegando lá desacelera o passo e seu coração palpita dolorosamente. Ao longe enxerga a silhueta de um homem deitado num banco e sabe que não é um morador de rua. Ele está bem vestido, é saudável e tem um olhar triste ainda que durma. Aquele olhar de quando ela brigava com ele, aquele olhar de quando ela não aparecia e que dali em diante, seria o único, o último olhar que dele teria. Aproxima-se o suficiente para ter um relance do belo rosto, gostaria que ele não estivesse dormindo para enxergar seus olhos castanhos a brilhar. Gostaria de poder tocá-lo, bagunçar seus cabelos e sentir o calor de seus braços, todavia sabe que os últimos dois anos o separaram definitivamente. Não alimentará falsas esperanças e vira-se para ir embora em meio às árvores.
   Enquanto parte, pisa num galho largado no chão e machuca os pés descalços. Reclama baixinho, porém alto o suficiente para que os ventos da madrugada e do silêncio levassem sua voz ao homem que dorme, a Diego, seu amor. Ele levanta-se em sua direção e começa a andar. Ela o fita com lágrimas nos olhos e ergue a mão direita pedindo que pare, que não venha. A última vez.
   Marília apega-se novamente às vestes e protege-se do frio. Vai embora mancando e vai embora para sempre. Quem passasse por aquele parque durante aquela madrugada presenciaria dois tristes fatos: a morte e a eternidade de um amor. Ela, que sacrificou o sentimento que tanto a doera e ele, que num urro desolador de “Eu te amo” para a moça que dormia, deixara seu sangue, seu corpo e seu amor ao lado de um revólver num parque qualquer de uma metrópole qualquer. Uma nota sobre suicídio de um tal Diego saíra num jornal de bairro, nada muito enfático, apenas mais um jovem que dera um tiro na cabeça durante a madrugada. Os médicos disseram que era louco, mas Marília, que nunca tomou conhecimento do fato, sabia que não. Fora uma paixão e nada mais.

3 comentários:

Tainá Abreu disse...

Tem um selinho do meu blog pra você, *-*
http://umnovoabrigo.blogspot.com/2011/05/selinho.html

beijos.

Diferentes olhares disse...

amei o blog ... gostaria de colocar seus textos Ana no meu... acabei de começar http://diferentesolhares.blogspot.com/

deixa?

Teorias de Gi disse...

Que lindo, triste e profuno, dificil não se comover com esta história...Achei q ia ter um felizes para sempre no final, mas sou dada a finais não tão felizes mais maecantes e emocionantes!