Olá blogueiros!
A postagem era para ter ido ao ar na semana retrasada mas, por conta de outros livros que chegaram após e durante a leitura, acabei passando outras resenhas à frente.

Autor: Erico Verissimo
Editora: Globo (embora a capa seja da Cia. das Letras, que é a edição mais nova e mais facilmente encontrada)
Número de páginas: 224
ISBN: 85-250-0507
Gênero: Literatura brasileira; ficção histórica
Rodrigo Cambará,
impetuoso capitão gaúcho,
desbrava pampas e corações.
É livre como o vento,
e seu heroísmo
deixa marcas na História.
Ainda há heróis no nosso tempo?
Não é fácil falar sobre Erico Verissimo sem pensar na forma cativante com a qual ele conduz suas histórias. São livros com uma temática simples, sem muitas reviravoltas e que, todavia, ainda assim, emocionam o público e tornam suas personagens únicas. Assim é Rodrigo Cambará, impetuoso capitão gaúcho, desbravador de pampas e corações.
"- Não tem medo de ir para o inferno?
Rodrigo cruzou as pernas, atirou o busto para trás e recostou-se contra a porta da capela.
- Padre, ouvi dizer que no céu não tem jogo nem bebida nem carreiras nem baile nem mulher. Se é assim, prefiro ir pro inferno."
p. 55
"Um certo capitão Rodrigo" é um retrato da vida deste homem que ama a liberdade, a farra, a guerra. Um revolucionário que já viu de tudo pelo mundo, já esteve na presença de todo o tipo de mulher e, por acaso, em uma tarde de outubro de 1828, entrou na vida do pacato povoado de Santa Fé, Rio Grande do Sul.
A história inteira gira em torno da trajetória do capitão após este ter se decidido a parar seu nomadismo de guerreiro, fixando-se naquele humilde lugar. Logo ao início, através do primeiro contato dele com Nicolau e Juvenal Terra, por exemplo, nota-se a apreensão dos habitantes em relação àquele homem calejado e festeiro. Seus modos, como lhe diz Juvenal, não condizem com a vida com a qual aquele povo está acostumado. Ali, em Santa Fé, os homens eram trabalhadores, acordavam antes do raiar do sol para cuidar da lavoura e do gado; as mulheres, por sua vez, eram direitas, dedicadas à família e a seus maridos; as moças jovens, ao contrário das chinas (termo típico da região ao referir-se às mulheres vulgares, da vida, por assim dizer)
É natural que ao chegar Rodrigo, por sua aparência que beira o atraente aventureiro, as pessoas permaneçam em dúvida quanto à sua conduta. Logo, entretanto, o homem de modos rudes e também cativantes, acaba por conquistar a simpatia da classe modesta daquele lugar. Ele conquista, incluisve, o coração de Bibiana Terra, virgem moça que até então nunca tinha deixado enamorar-se por um rapaz. Até surgir o capitão, seu capitão. Este, por sua vez, jamais desejara tanto uma mulher quanto ela.
O tema central de "Um certo capitão Rodrigo" é, principalmente, o desenvolvimento de seu romance com a moçoila submissa, ternamente apaixonada. Rodrigo é, sem sombra de dúvida, uma personagem complexa, que causa adoração e raiva. O leitor certamente sentirá simpatia pelo protagonista, desde seu modo engraçado de se falar, até os momentos nos quais o sangue quente do homem que já viu tantas guerras vinha a todo vapor.
Bibiana lembra a avó Ana Terra (protagonista de outro volume da mesma trilogia de "Um certo capitão Rodrigo", embora as personagens não tenham um vínculo concreto entre si). É quieta, teimosa e carrega consigo o fardo de amar um homem de coração livre, que nunca pertencerá a alguém além de si mesmo, por mais apaixonado que possa parecer.
O romance de Verissimo em questão vem com menos poesia e lirismo que em Clarissa, por exemplo, mas a sua marca é incontestável no que diz respeito às personalidades das personagens e à exaltação do estado, não do país. Características regionalistas são altamente visíveis em seu texto. Fala-se de Rio Grande do Sul, de imigração alemã, das Revoluções Farroupilhas que, a propósito, têm papel muito importante em certo ponto da história.
Por algum motivo que não sei ao certo como explicar, fiquei realmente ligada a esse livro. A leitura fluiu rapidamente e, apesar de tudo, o desbravador de corações, Rodrigo, soube cativar-me igualmente à colega Bibiana. Um anarquista, ateu e, acima de tudo, amante da vida e dos prazeres da Terra.
Não temos aqui o herói brasileiro, porém o herói gaúcho, a marca do povo do Sul. Não temos também o herói romântico, perfeito... Talvez o realista, cheio de defeitos e que encanta por ser, afinal, humano.
Indico a leitura da obra de Erico Verissimo a todo nativo do Rio Grande do Sul que quer conhecer um pouco mais de sua história.
Definindo Rodrigo Cambará em uma frase completamente anarquista...
"Se hay gobierno, soy contra."
E que venha "Ana Terra".
Avaliação geral:
Nota 4 de 5 (Muito Bom)
Uma boa noite a todos,