Título: Garota, Traduzida
Título original: Girl in Translation
Autora: Jean Kwok
Tradutor: Paulo Afonso
Editora: Suma de Letras
Número de páginas: 239
ISBN: 978-85-60280-914-9
Edição: Rio de Janeiro 2011
Gênero: Ficção americana
Quando Kimberly Chang e sua mãe, emigrantes de Hong Kong, se estabelecem numa área pobre do Brooklyn, tem início uma árdua dupla jornada para a menina de 11 anos. De dia, ela luta na escola contra o seu quase total desconhecimento de inglês, superando o preconceito do professor e revelando-se uma aluna com muita vontade de aprender. À noite, ao lado da mãe, trabalha duro numa fábrica de tecidos, desafiando a incredulidade de colegas da escola, certos de que “trabalho infantil não existe nos Estados Unidos”.
Dia após dia, Kimberly lida em silêncio com verdades dolorosas: uma vida de privações, num apartamento imundo, frio, infestado de ratos; um futuro incerto, cujo peso recai mais e mais sobre seus ombros, em função da deterioração da saúde da mãe; o amor secreto por um menino que trabalha na casa de máquinas da fábrica. Imaginação, criatividade e enorme capacidade de amar são suas únicas – mas poderosas – armas para encontrar algum conforto e perspectivas.
“Foi o mais próximo que a mãe esteve de expressar seu arrependimento por ter vindo para os Estados Unidos. Entendi qual seria minha tarefa dali por diante, e pousei a cabeça em seu ombro.
- Vou tirar nós duas daqui, mãe. Eu prometo.”
p. 41
“Garota, Traduzida”, um título que por uma simples vírgula acaba confundindo o leitor mas que, de certa forma, faz toda a diferença. Kimberly não é uma garota traduzida. Ah-Kim é a garota chinesa, traduzida após a drástica mudança de vida, uma vã esperança de poder, no Continente Novo, ser uma feliz adepta do american way of life. A realidade encontrada pela jovem de 11 anos e sua mãe nos Estados Unidos foi, entretanto, muito distinta, assustadora e, acima de tudo, cruel...
“Eu não tinha meias compridas, mas na véspera do Natal coloquei uma das meias da mãe, maior que as minhas, sobre a mesa onde estudava. Quando acordei, havia uma laranja e um envelope vermelho chinês com dois dólares dentro – uma fortuna. Logo percebi que Papai Noel não existia, existia somente a mãe, e isso era o bastante.”
p. 63
As condições de vida da protagonista e de sua protetora apavoram. Logo ao início, temos diversas descrições da pobreza, da miséria em que vivem. Um apartamento cheio de baratas e camundongos que surgem no meio da noite e avançam em qualquer alimento que encontrem. Fendas nas paredes nas quais deveriam haver janelas mas, pela falta de dinheiro, puderam apenas colocar sacos de lixo, temendo todos os dias e noites que um ladrão do subúrbio aparecesse e lhes roubassem seus pertences mais valiosos, tão desvalorizados se colocados ao lado de adereços caros.
A menina que chega a Nova Iorque, a Big Apple aos seus 11 anos, não viu o glamour da cidade mais cosmopolita de todo o mundo. Kimberly viu tudo do mais precário, ansiou por carne em suas refeições, esperou por um casaco que a aquecesse e protegesse do inverno rigoroso num apartamento miserável e sem calefação. Logo criança, falando escassamente o inglês, estudava durante a manhã e trabalhava metade de seu dia ao lado da mãe na fábrica de roupas, num emprego medíocre cedido por Tia Paula, mulher detestável e mesquinha que negou à sobrinha e à irmã qualquer possibilidade de sucesso. Aqui o leitor facilmente sentirá uma revolta tremenda ao notar a situação da família, ao ver o quanto as duas batalham para obter o alimento do dia seguinte, regalia de valor incalculável e o quanto, ainda assim, a mocinha de nossa história – que a propósito não é mocinha, mas uma heroína de muita força – mantém-se firme em seu foco, aspirando a empreitadas brilhantes e a um futuro concreto, cômoda à pessoa mais querida que lhe restou.
Órfã de pai, extremamente inocente e cheia de saudades - da vida que levava em Hong Kong, da voz e do auxílio de seu patriarca - , Kim é uma das protagonistas mais admiráveis com as quais me deparei neste ano e em todos os livros que fizeram parte de minha vida, senão a mais. Ao contrário das moçoilas que aguardam sentadas e chorosas por melhoras, a chinesa ergue-se de seu abismo e vai caminhando, ainda que lentamente, rumo ao topo. Também contradizendo as famosas garotas de fibra, teimosas e que nada fazem além de se oporem a seus pares românticos, ela é paciente, suporta dores agudas e humilhações em silêncio, não sem esquecê-las ou permitir-se à descrença. O livro, que acompanha seu crescimento, o final de sua infância e toda a sua adolescência, mostra o quanto evolui, o quão determinada pode ser.
“Nasci com um talento. Não para a dança, nem para a comédia, nem para nada tão agradável. Sempre tive talento para o aprendizado escolar.”
p. 5
Uma aluna excelente, um exímio prodígio e exemplo de dedicação. Horas e horas da madrugada gastas com estudos, com exercícios e trabalhos em uma língua que ela sequer era capaz de falar, ao início. Na escola, sua única amiga e a companheira de todos os anos, Annette, ensinou-a que havia compaixão no homem branco, de pele engraçada, que ficava vermelha ao sol. Kimberly, que não tinha visto tantas madeixas louras na China quanto as via nos Estados Unidos da América, aprendeu com a menina dos olhos claros o verdadeiro significado da amizade, o companheirismo puro, mútuo. Não menos importante, nas horas de sufoco e trabalho sobre-humano na fábrica, conheceu através do menino de olhos castanhos o que era um tal de amor...
“Ele me mostrara seu segredo vergonhoso, e eu o aceitara. Parecia um momento decisivo para nós, uma promessa de confiança e sinceridade, e talvez até de amor.”
p. 157
Outro fato peculiar no livro, é a forma com a qual a menina contabiliza os gastos, quaisquer gastos imagináveis. Em vez de pensar como nós, em reais ou, em Nova Iorque, dólares, Kim pensa em saias, em quantas saias deverá embalar para comprar o produto desejado. Levando-se em consideração que, a cada peça, ganhava um centavo, chegou a trabalhar arduamente para empacotar setecentas em uma hora e findar todas as dívidas que, infelizmente, ainda tinham com Tia Paula e Tio Bob pela ida à América.
“Falavam com empolgação de lugares como Snowbird, em Utah, e Vallery, na França. Um determinado modelo de jaqueta de esqui, curto e apertado, com um grande colarinho, começou a fazer sucesso. Não demorou, todos os alunos da sala estavam com um deles. Eu soube que custavam no mínimo 20 mil saias, cada um.”
p. 126
Enquanto, atualmente, em histórias juvenis nos deparamos com adolescentes que têm problemas com seus poderes sobrenaturais ou seus namorados vampiros, anjos, lobisomens, demônios, caçadores de sombras e tudo mais que se possa imaginar, o maior e o mais temeroso problema de Kim é a realidade crua, a vida em seu tom mais duro. O que, facilmente, torna o livro de Jean Kwok, com inspirações subjetivas em sua própria trajetória de emigração de Hong Kong aos EUA, uma leitura imperdível, simples, mas com uma riqueza incalculável.
A linguagem da obra nada tem de muito rebuscada, segue a padrão pelas palavras da protagonista, que conferem mais realismo a tudo que nos é passado. O tempo passa rapidamente e acompanhamos cerca de 15 anos da vida de Kim ao longo das 239 páginas, que prometem ser rápidas como ventos de ressaca ao transcorrer de toda a história.
Em “Garota, Traduzida”, o leitor conhecerá alguns costumes distintos dos chineses e da própria religião budista; entenderá aquilo que acontece por detrás das maiores indústrias do planeta, pelas mãos de crianças desprovidas de esperança; sentirá uma vontade tremenda de melhorar, de se superar e ser um dos melhores alunos da sala, piores sejam os tempos pelos quais esteja passando; amará, detestará e, por fim, compreenderá, que quando se deseja algo incontestavelmente, acima de qualquer dificuldade, nenhum obstáculo é maior que a conquista, nenhum limite é capaz de transpor o destino traçado pela obstinação.
Avaliação Geral:
Nota 5 de 5 (Ótimo)
Uma boa quinta-feira a todos,