Autor: Breno Melo
Editora: Schoba
Número de páginas: 216
Edição: 2010
ISBN: 978-85-8013-014-0
Gênero: Ficção; Literatura Brasileira
"Marta saiu do quarto não sem antes notar sua feiura, para enfim ganhar as ruas e enfrentar novamente o mundo, que, para ela, se resumia à sua cidadezinha de La Falda (uma espécie de Asteroide B-612, se o leitor já leu O Pequeno Príncipe e deseja uma comparação qualquer)."
É notável na sociedade moderna a abordagem ressaltada de algumas doenças psicológicas dadas pela convivência humana e outros agentes causadores. Entre elas, destacam-se, por exemplo, a depressão, a prática de bullying e não menos popular, a bipolaridade que, a propósito, é muitas vezes mal compreendida. A questão vigente é que Marta, a protagonista que dá nome ao livro, sofre dessa doença e apresenta-se ao leitor através de seus amores e desamores, seus dramas e sua notável inconstância.
Ao início, em uma nota do autor, Breno Melo alerta que "Marta" pode possuir quatro tipos de leituras distintas entre si: a leitura médica, observada por psicólogos e psiquiatras que poderão, através das entrelinhas, diagnosticar a doença de Marta; a leitura filosófica, que fará com que os estudiosos da área compreendam algumas das questões que rondam a cabeça da protagonista e de quase todos nós acerca da própria existência, do amor, da descrença e de outros valores; a leitura popular, que pode ser feita pelo leitor leigo como outra qualquer e, por fim, a pessoal, para os próprios bipolares e pessoas acerca dos mesmos, capazes de compreender os dramas acarretados pela doença.
Conhecemos enfim, através de um narrador onisciente sob notáveis influências machadianas, a protagonista Marta, uma adolescente argentina que passa por um período conturbado de amor. Apaixonada perdidamente por seu ex-namorado e colega de escola, João, não se conforma e sofre por perdê-lo, sujeitando-se a todo tipo de situação degradante para que a note novamente e compartilhe de seu desejo. Certa noite, no pontapé inicial do livro, a moça vai a uma boate da pequena cidade de La Falda, acompanhada de suas duas melhores amigas, Sílvia e Naila, a fim de chamar a atenção do amado, quando descobre que o mesmo estava namorando outra moça das redondezas. Inebriada de ciúmes, Marta embebeda-se de fernet e se deixa levar por outros rapazes, acabando pela manhã, inconscientemente, em um quarto feio de motel, nua, ao lado de um desconhecido qualquer a quem ofereceu sua virgindade. Arrasada, vai para casa sem qualquer honra, despida de esperanças e de amor próprio.
Desde o início, embora desconheça os verdadeiros sintomas da bipolaridade, não pude deixar de notar os dois extremos em que a protagonista vive. Em um dia está extremamente feliz, apaixonada e devaneia de uma forma até entediante a respeito do amor. Em outro, está desolada, sem forças para viver. Poderiam alguns leitores dizer-me que é um caso de uma paixão forte, mas ela realmente não se restringe a isso.
O livro gira em torno de Marta e seu amor por João. A moça vai para a faculdade com as amigas, deixa a cidade de La Falda rumo a Córdova, contudo são inegáveis suas raízes e o lar que só o coração é capaz de definir. Não há outros núcleos importantes na temática, nem personagens que alterem o curso dos fatos além do próprio narrador, que acaba por fazer-se uma entidade de suma importância, ainda que desconhecido pela própria Marta.
A narrativa de Breno Melo vai buscar inspiração no Realismo com o narrador que dialoga com o leitor, tornando-o seu interlocutor e, principalmente, com a intertextualidade. Ao longo das 216 páginas do livro, muitas outras obras famosas são citadas e apesar de conferirem notável conhecimento ao leitor mais curioso, podem acabar dispersando com as várias teorias filosóficas sobre o que o amor representa em nossas vidas, o que é importante e enriquecedor, mas muito cansativo por vezes.
Além dela, impossível não notar certa formalidade nos diálogos que acabam tornando-os artificias em alguns momentos. Destaco uma conversa entre Marta e Sílvia, esta que praticamente expeliu toda uma teoria de Sócrates a respeito de questões amorosas e foi demasiadamente enfadonha.
Marta é uma personagem interessante. É complexa, apaixonada, insensata e até reservada. É difícil a leitora não se identificar com ela em dado momento que fala a respeito de sua grande decepção amorosa, causando facilmente comoção e compreensão mútua. Ao início, entretanto, alguns traços de sua personalidade não se destacam tanto pelo sem-número de devaneios que tem a respeito de seu Joãozinho e da virgindade levianamente perdida.
"Sobre João, entretanto, Marta veria que o Amor desconhece números e Matemática. Pois, ainda que só houvesse 15 mil habitantes em La Falda, bastou-lhe uma possibilidade em 7,5 mil (que é a população masculina da cidade) para que ela se apaixonasse."
Em meio à doença psicológica, há um drama e uma melancolia que destoam dos momentos felizes de Martinha, mas que surgem para incorporar a obra de forma inteligente e sentimental.
Com rumos surpreendentes, uma temática distinta que não promete reviravoltas, contudo todo um aprofundamento a respeito da mente humana, "Marta" é um livro raro, de qualidade notável desde o comprometimento com as regras da norma culta do português, passando pelas várias referências a personalidades como Dante Alighieri e Sócrates, chegando enfim ao seu ponto alto, o relato das inconstâncias de um coração bipolar que, antes de todas as coisas, é um coração como outros, sujeito aos grandes amores, às decepções, às alegrias e às desgraças da vida
"Talvez os loucos sejam mais felizes do que pensamos, e nós mais tristes do que eles parecem ser."
Avaliação Geral:
Nota 3 de 5 (Bom)
Agradeço ao autor parceiro, Breno Melo, pelo envio do livro e, em breve, teremos promoção do mesmo. Aguardem!
Uma boa quinta-feira a todos,