24 novembro 2011

24
nov
2011

A Menina que Roubava Livros, por Markus Zusak


Título: A Menina que Roubava Livros
Título original: The Book Thief
Autor: Markus Zusak
Tradução de: Vera Ribeiro
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 382 (versão pocket)
Edição: 2011
ISBN: 978-85-98078-37-3
Gênero: Ficção Australiana; Drama; Guerra Mundial
"A menina que roubava livros tinha atacado pela primeira vez - o começo de uma carreira ilustre".
O leitor há de se impressionar com a, assim chamemos, falta de novidade presente na resenha de um livro tão lido e conhecido por quase todos. Ainda em minha última postagem, falei sobre livros que nos fizeram chorar e entre os vários comentários, foi unanimidade o fato de que esta obra, especificamente, teria mexido com algo muito íntimo em seus seres. Pois então, ao final de uma semana acompanhada de Liesel Meminger e seu universo nebuloso cheio de cores enxergadas pela Morte, posso dizer que compreendo o que queriam dizer.

Na parte posterior do livro, encontramos os seguintes dizeres: "Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler." Tendo em vista que a eloquência da Morte - escreve-se em letra maiúscula, já que a tão temida se torna uma personagem onisciente da história da menina que roubava livros - é conferida por Markus Zusak, não poderia ser mais correta.

Muito antes deste nobre volume, tive uma experiência agradabilíssima com "Eu Sou o Mensageiro", do mesmo autor australiano. Uma leitura emocionante, com um vocabulário por vezes chulo que soube mostrar ao leitor a grandeza que o ser humano bom pode ter. Com "A Menina que Roubava Livros" não poderia ter sido diferente... Uma carga semelhantemente grandiosa em palavras de calão (em vez de "porra" e "filho de uma puta", muitos "saumensch" e "saukerl"), criatividade e, verdade seja dita, superiora em emocionar e mostrar ao leitor muito sutilmente para que Markus Zusak veio ao mundo.

A ideia ousada de a narração ser conduzida pela Morte foi o primeiro trunfo do autor, uma forma muito inteligente e sensível de mostrar de maneira onisciente o que acontecia com cada uma das personagens imprescindíveis na vida da menina Liesel e narrar, paralelamente, o período trágico que a Alemanha nazista vivia.

Logo ao início, a protagonista de então 10 anos sofre com a morte de seu irmão em um vagão qualquer de um trem rumo a Munich. No cemitério em que o pequeno foi sepultado, em um enterro com a solitária presença apenas da mesma e de sua mãe, Liesel se depara com sua primeira oportunidade de roubar um livro, um manual sobre sepulturas de um dos coveiros. É então que nossa história realmente começa... Desolada com o turbilhão de sentimentos que lhe assalta, a menina ainda se depara com mais uma provação: sua mãe, em nome da miséria e da falta de condições para criá-la, doa a amada filha que nunca mais veria a um casal também pobre, mas capaz de mantê-la viva.

Rosa e Hans Hubermann que apesar de todos os temores da menina, acabariam por se tornarem seus amados pais. Ela, a pequena mulherzinha capaz de proferir uma série de palavrões, especialmente ao tratar aqueles que amava. Dura e irritadiça, porém com um coração genuíno, muito bom. Ele, que viraria aquele que a pequena mais amaria em toda sua vida. Um homem de olhos prateados derretidos em bondade, tocava acordeão como ninguém e ensinaria a filha a ler, oferecendo a ela o grandioso poder da palavra. Ali na rua Himmel, céu em alemão, Liesel conheceria também a família Steiner e teria uma amizade muito pura com Rudy, o menino dos cabelos cor de limão e muitos outros vizinhos com suas histórias paralelas a serem narradas pela Morte.

O envolvimento com o livro é imediato. As personagens são muito palpáveis e emocionam irremediavelmente. Markus Zusak conduz a narrativa com a história de Liesel, ao longo do passar dos anos e mostra as várias faces de uma Alemanha nazista repleta de terror, de medo e desconfiança. Cada personagem pode ser uma alegoria de sua posição perante a guerra. Vemos o fanatismo, a indiferença, a aceitação de uma realidade perversa, a luta judaica pela sobrevivência... Acima de tudo, ele nos mostra como pequenas coisas podem dar grandes esperanças ao homem. Na música suave de um acordeão, nos gestos de amizade com os roubos de Rudy e Liesel, na leitura em um porão no qual todos aguardam pelas bombas, pela Morte.

Todas as personagens têm histórias diferentes e que geram a compaixão do leitor. Entre as minhas mais queridas, destacaria facilmente Hans e Max, este o judeu que compartilha de uma amizade muito sincera e cândida com a menina Meminger e luta para encontrá-la novamente, aquele a figura perfeita do pai bom, honesto, do homem que alimentou judeus e apanhou, sofreu as consequências... Impossível não reparar e não sentir aquela imensa vontade de chorar também com a amizade entre Rudy e Liesel. O companheirismo entre os dois para tudo, a troca de xingamentos e de esperanças, os vários pedidos de beijos e o amor infantil que nasce na guerra, nos tempos mais difíceis.
"Doido ou não, Rudy sempre esteve destinado a ser o melhor amigo de Liesel. Uma bolada de neve na cara é, com certeza, o começo perfeito de uma amizade duradoura."
Estou longe de ser a primeira pessoa a ler este livro e tenho certeza de que mais ainda a ser última. "A Menina que Roubava Livros" é uma lição de vida, do quão delicada a mesma é, de como até a morte lamenta por algumas perdas... Uma prova de que há humanidade em meio até à mais sombria das guerras, amor entre o mais venenoso ódio. Um daqueles livros para toda a vida.

Avaliação Geral:
Nota 5 de 5 (Ótimo)
Uma boa quinta-feira a todos!