10 dezembro 2011

Marina, por Carlos Ruiz Zafón

Título: Marina
Título original: Marina
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradução de: Eliana Aguiar
Editora: Suma de Letras
Número de páginas: 189
Edição: Rio de Janeiro 2011
ISBN: 978-85-8105-016-4
Gênero: Literatura espanhola; Ficção; Romance
"Às vezes, as coisas mais reais só acontecem na imaginação, Óscar - disse ela. - A gente só se lembra do que nunca aconteceu."
Há autores valiosos dotados da imensa capacidade de emocionar de maneira única com suas histórias. Aqueles que nos fazem acreditar que talvez, realmente, haja um dom. Os responsáveis pelos livros que nunca sairão de nossas memórias. Zafón, certamente, é um desses.

Já falamos anteriormente no blog a respeito de A Sombra do Vento e o que o leitor verá em Marina é notavelmente semelhante ao outro exemplar. Melhor dizendo, o livro em questão se enquadra no gênero juvenil, apesar de, fique avisado o leitor, ter um grande apelo gótico e mórbido característico de Zafón, ainda mais forte em sua essência.

Conheceremos aqui, nas breves 189 páginas - uma lástima para os fãs de boas histórias e que prometem passar muito rapidamente -, a história da jovem Marina e de Óscar, narrador do livro, um rapaz que se aventura pelas ruas da Barcelona esquecida nos intervalos de suas aulas no internato. Muito só pela indiferença dos pais, busca sempre por algo novo e acaba, em certa excursão, indo parar em uma mansão antiga onde um gato de aparência maligna resguarda a entrada. Uma vez no recinto, acreditando tratar-se de algo abandonado, admira-se com um relógio de ouro sobre a mesa e é surpreendido pelo dono da casa, que vai vorazmente em sua perseguição.

Ainda no dia seguinte, chateado por, sem a intenção, ter levado o relógio com uma dedicatória, Óscar retorna à mansão para devolvê-lo ao seu dono e, neste mesmo dia, pousa seus olhos pela primeira vez em Marina, a personagem que dá nome ao livro e que guia toda a narrativa rumo a algo encantado, através das deslumbrantes palavras de Zafón.

"Uma bicicleta emergia lentamente da bruma. Uma menina usando um vestido branco descia a encosta pedalando na minha direção. Na contraluz do amanhecer, eu podia adivinhar a silhueta de seu corpo através do algodão. Uma longa cabeleira cor de feno ondeava escondendo o rosto. Fiquei ali, imóvel, contemplando-a enquanto se aproximava, como um imbecil com ataque de paralisia."
O leitor, a partir daí, acompanhará Óscar e Marina, que logo se tornarão amigos em um mistério acerca de uma senhora inteiramente coberta de negro que visita o cemitério perdido de Barcelona todas as semanas e para em frente a um túmulo distinto, sem inscrições, apenas com uma misteriosa borboleta negra, símbolo de Mijail Kolvenik, um excêntrico e brilhante homem fascinado pelos poderes da medicina.

O clima sombrio em que a narrativa é desenvolvida há de fascinar e também de apavorar o leitor. Carlos Ruiz Zafón, em sua eloquência literária descreve as ruas da antiga Barcelona fazendo com que sintamos conhecê-la e, em certas partes, utiliza-as a como artifício para o medo. Cenas pavorosas descritas nas mansões abandonadas farão com que o leitor tema o silêncio da noite e as criaturas de sua imaginação.

O autor mais uma vez nos apresenta a personagens inesquecíveis e nos traga para suas vidas. Vão se comover com Óscar e querer acalentá-lo nos momentos necessários, auxiliá-lo em seu busca. Já Marina foi descrita por outros leitores como a mocinha mais apaixonante e angelical dele, cheia de juventude, de mistério, quase que uma entidade, alguém que veio de uma juventude mais antiga, intocável. Seu pai, Gérman, é um artista que fica responsável por falas inspiradoras a respeito de luz e de paixão. Mijail Kolvenik é o grande trunfo da história, com um passado que oscila entre o fascínio e o horror de maneira genial.

Entretanto, o leitor de outros livros de Zafón talvez notará um detalhe peculiar em suas obras. Disseram, certa vez, que todo autor escreve, em vários livros, a continuação da mesma história. O que alguns classificariam como estilo, que se repete em suas obras, talvez tire um pouco da essência do mistério. Permitam-me explicar-lhes. Tanto Marina quanto A Sombra do Vento são obras fantásticas e que hão de surpreender o leitor. Contudo, será fácil notar certas semelhanças entre elas que talvez tirem um pouco do encantamento. Sendo assim, eu indicaria, ao leitor desavisado, que lesse anteriormente Marina, para deixar-se surpreender pela magnificência escondida em simplicidade descompromissada de A Sombra do Vento.

Marina é um livro melancólico, misterioso, nostálgico e surpreendente. Certamente integra a categoria dos perturbadores. Uma vez tendo-o lido, dificilmente será esquecido.

Alguns trechos valiososos...
" - Deve ter percebido que não temos eletricidade, Óscar. Na verdade, nós não damos muito crédito aos avanços da ciência moderna. Afinal de contas, que tipo de ciência é essa, capaz de colocar um homem na lua, mas incapaz de colocar um pedaço de pão na mesa de cada ser humano?"
"Sem dúvida, a mulher que abriu a porta tinha fugido de uma pintura sacra. Etérea, virginal, envolta num ar místico. Sua pele era branca como a neve, quase transparente, e seus olhos, tão claros que mal tinham cor. Um anjo sem asas."
"O tempo faz com o corpo o que a estupidez faz com a alma [...] Apodrece."
Avaliação Geral:
Nota 4 de 5 (Muito Bom)

Um bom sábado a todos!


7 comentários:

Natalia Dantas disse...

Um dos livros que eu estou louca para ler :D
Muito emocionante, desde o primeiro dia que o vi, foi uma especiie de amor a primeira vista sZ' rsrs'

Ótima resenha :D

Beijos :*
Natalia.
http://musicaselivros.blogspot.com/

Vanessa disse...

Eu li "A sombra do vento" e por conta deste livro me tornei muito fã de Carlos Ruiz Zafón, comprei "O jogo do anjo" mas ainda não li. PRECISO comprar o "Marina".

Vanessa - Balaio

Aione Simões disse...

Entendo completamente o que você quis dizer sobre as semelhanças.
Isso é muito presente nos livros de Dan Brown, o que fez com que eu me decepcionasse em O Símbolo Perdido, e não ter me surpreendido tanto em Fortaleza Digital e Ponto de Impacto!
De qualquer forma, sua resenha está excelente como sempre e desperta, e muito, a curiosidade não só por Marina, mas pelas obras de Zafón de um modo geral!
Beijão!

Kassiane Cardoso disse...

Resenha muito boa...
Fiquei muito curiosa agora,espero poder ler ele =D
Beijos

Andressa Leite disse...

Sempre ouço ótimos comentários sobre as obras de Zafón. Não li nenhuma ainda e não sei se faz o meu estilo de livro. com certeza é algo profundo, que mexe com você. E pelas frases retiradas do livro, a história e os personagens são algo difíceis de esquecer.

Pah disse...

Oi meninas

Ana, confesso, vim aqui especificamente para ler essa resenha. Lembro de ter visto o post na atualização de vocês, mas estava totalmente sem tempo para lê-la (não que agora eu esteja com tempo já q. estou no trabalho, rs). Entretanto, estava muito curiosa para saber o que você achou do livro. Estou louca para lê-lo, agora mesmo ele está na minha cesta de compras, mas antes de finalizar a mesma, resolvi vir aqui.

Entendo o que vc disse sobre as semelhança, isso ocorre muito em obras de gênero clássico histórico. Tenho muita curiosidade em ler um livro desse autor desde quando vc publicou a resenha do A Sombra do Vento por aqui e agora, após ler sua resenha, certeza que vou comprar esse livro, ele realmente parece ser incrível, dps leio o A Sombra do Vento seguindo sua dica a respeito do estilo de escrita do autor!

Parabéns pela resenha.

Beijokas

Pah, Livros * Fuxicos

Eduarda Menezes disse...

Ahh Marina! :)

Eu achei esse livro ainda mais sombrio do que A Sombra do Vento mas igualmente maravilhoso. É incrível que em tão poucas páginas o Zafón consiga trazer uma obra tão perturbadora e tocante em diversos sentidos. A sua escrita, mesmo que em poucas linhas é muito profunda e bem articulada, e a sua capacidade criativa é sem limites.

Realmente nota-se a grande semelhança na construção da história e na forma de narrativa entre esse livro e o outro mais famoso do autor, mas acho que isso é inevitável levando em consideração que cada autor deixa aquele seu toque particular em cada obra que escreve - daí um ponto que você ressaltou no texto. Mas acho que dentro desse estilo do Zafón ele consegue extrair histórias incríveis e inesquecíveis, cada uma especial a seu determinado modo, e particular a sua maneira! É um autor como nenhum outro! =)

Adorei os quotes escolhidos, aliás o difícil é não sair marcando o livro inteiro, né? rs

Beijão Ana!!