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01 abril 2013

A Serenata Proibida - Vicente Ramos


Seus desejos eram proibidos. Mas um negava isso ao outro. Queriam estar juntos, queriam mesmo isso lá no fundo.

Desejos reprimidos. Destinos diferentes. Mas estavam lá. Lado a lado. Frente a frente. Só os dois. Ninguém mais. Guardavam para si sentimentos e segredos um sobre o outro. Queriam estar juntos, naquele momento único e eterno. Nada mais. Era proibido.

Ele queria escrever sobre ela. Para ela. Com ela. Ela queria estar com ele. Sentir seu peito. Dar um jeito.

Mas era proibido. Proibido pelas circunstâncias. Por todo o bom senso. 

Ela se sentia culpada e horrível. Ele sabia que ela era inocente e incrível. Mesmo que essa fosse uma paixão proibida. 

27 março 2013

Textos de outros autores: Santuário Brega

Foto: We Heart It/ Tumblr
Este é um texto da autoria de Fabrício Carpinejar, publicado em Jornal Zero Hora e em seu blog pessoal.

Santuário Brega

Nosso amor tem direito a uma exceção cafona, a preservar um ídolo da infância acima de crítica.

É como um serviço de proteção do passado. Não deve debochar. Não deve rir. Não deve expor no Facebook e cometer bullying familiar.

Toda mulher elegante preserva um altar brega dentro do armário. Conserva uma gaveta onde guarda recortes de jornais e revistas, cifras de músicas, coleciona souvenires.

Se ela não tem um santo bagaceiro, a situação é ainda mais grave: ela é completamente brega. Ter unzinho previne outros.

Custei a aceitar a cota. No meu primeiro casamento, minha esposa era apaixonada por Dalto. Quando perdia a discussão de relacionamento, cantava em tom sarcástico:
Hum! Mas se um dia eu chegar
Muito estranho
Deixa essa água no corpo
Lembrar nosso banho
Hum! Mas se um dia eu chegar
Muito louco
Deixa essa noite saber que um dia
Foi pouco
Ela esbravejava, batia a porta na cara, me insultava, e eu ganhava seu rancor por dois dias.

07 outubro 2012

De outros autores: Clarice e o senso comum


Em meus passeios pela internet, descobri, por acaso, uma crônica muito interessante redigida por Zeca Baleiro para a revista Istoé,  em sua coluna mensal. Falando sobre literatura e sobre arte de maneira ímpar, compartilho-a hoje com os leitores do blog, deixando os devidos créditos, nesta postagem.

Clarice e o senso comum
Redescoberta (e desvirtuada) pelas redes sociais, Clarice passou de hermética a simplória
por Zeca Baleiro

Uma vez me vi numa discussão com um amigo inteligente, bem informado e amante do cinema (sim, pessoas assim existem). Ele comparava os geniais Jacques Tati e Charles Chaplin, tomando descarado partido do francês. Eu argumentava que Chaplin era maior porque mais abrangente etc., etc. Discussão inútil, como se vê. Tanto Tati como o pai de Carlitos foram dois gênios da raça indiscutíveis e incomparáveis, acima do bem, do mal e dos críticos de balcão de bar.

Lembro-me do episódio e reflito sobre o senso comum. Na indústria da música há a expressão “crossover” para designar o feito de uma canção arrebatar o mundo – ouvintes de todas as classes sociais, origens, idades e tribos. E na literatura, há os célebres “best-sellers”, livros que vendem como água e se espalham como gringos por Copacabana no verão carioca.

Antes de tudo, faço uma distinção: nem todo best-seller é um livro de má qualidade, assim como nem todo artista difícil é um gênio. Van Gogh foi maldito e genial. Vendeu um único quadro em toda a vida. Morreu como um louco fracassado. Arthur Bispo do Rosário era louco e internode um hospício. Foi diagnosticado como esquizofrênico e foi um artista brilhante, criando uma arte ultraoriginal a partir de trapos e sucatas que via pela frente.

08 novembro 2011

Crônicas: O prazer da leitura

Vasculhando pela internet e procurando por algo interessante, encontro esta maravilhosa crônica de Rubem Alves e trago aos leitores do blog com a intenção de compartilhar um pouco dessa magia de ler pela voz eloquente de um mestre na Literatura.
"Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece."
O prazer da leitura
por Rubem Alves 
Alfabetizar é ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de “alfabeto“. “Alfabeto“ é o conjunto das letras de uma língua, colocadas numa certa ordem. É a mesma coisa que “abecedário“. A palavra “alfabeto“ é formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: “alfa“ e “beta“. E “abecedário“, com a junção das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: “a“, “b“, “c“ e “d“. Assim sendo, pensei a possibilidade engraçada de que “abecedarizar“, palavra inexistente, pudesse ser sinônima de “alfabetizar“...

“Alfabetizar“, palavra aparentemente inocente, contém uma teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as sílabas. Depois, juntando-se as sílabas, aparecem as palavras...

E assim era. Lembro-me da criançada repetindo em coro, sob a regência da professora: “be a ba; be e be; be i bi; be o bo; be u bu“... Estou olhando para um cartão postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de redação: uma menina cacheada, deitada de bruços sobre um divã, queixo apoiado na mão, tendo à sua frente um livro aberto onde se vê “fa“, “fe“, “fi“, “fo“, “fu“... (Centro de Referência do Professor, Centro de Memória, Praça da Liberdade, Belo Horizonte, MG.)

Se é assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da música deveria se chamar “dorremizar“: aprender o dó, o ré, o mi... Juntam-se as notas e a música aparece! Posso imaginar, então, uma aula de iniciação musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a regência da professora, na esperança de que, da repetição das notas, a música aparecesse...

Todo mundo sabe que não é assim que se ensina música. A mãe pega o nenezinho e o embala, cantando uma canção de ninar. E o nenezinho entende a canção. O que o nenezinho ouve é a música, e não cada nota, separadamente! E a evidência da sua compreensão está no fato de que ele se tranquiliza e dorme – mesmo nada sabendo sobre notas! Eu aprendi a gostar de música clássica muito antes de saber as notas: minha mãe as tocava ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabeça. Somente depois, já fascinado pela música, fui aprender as notas – porque queria tocar piano. A aprendizagem da música começa como percepção de uma totalidade – e nunca com o conhecimento das partes.

Isso é verdadeiro também sobre aprender a ler. Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a estória. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. “Erotizada“ – sim, erotizada! – pelas delícias da leitura ouvida, a criança se volta para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifrá-los, compreendê-los – porque eles são a chave que abre o mundo das delícias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.

No primeiro momento as delícias do texto se encontram na fala do professor. Usando uma sugestão de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, é o “seio bom“, o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professor lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos extasiados. Ninguém falava. Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia provas sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa de leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder questionários de interpretação e compreensão. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro...

Vejo, assim, a cena original: a mãe ou o pai, livro aberto, lendo para o filho... Essa experiência é o aperitivo que ficará para sempre guardado na memória afetiva da criança. Na ausência da mãe ou do pai a criança olhará para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as delícias que estão contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da mãe: eles são aqueles que têm a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso! Roland Barthes faz uso de uma linda metáfora poética para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem: continuar a fazer aquilo que a mãe faz. É isso mesmo: na escola, o professor deverá continuar o processo de leitura afetuosa. Ele lê: a criança ouve, extasiada! Seduzida, ela pedirá: “Por favor, me ensine! Eu quero poder entrar no livro por conta própria...“

Toda aprendizagem começa com um pedido. Se não houver o pedido, a aprendizagem não acontecerá. Há aquele velho ditado: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencer a égua a beber“. Traduzido pela Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo. Quero é fome“. Metáfora para o professor: cozinheiro, Babette, que serve o aperitivo para que a criança tenha fome e deseje comer o texto...

Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa questão acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele me disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu também amava aquele poema. Aí ele começou a lê-lo. Estremeci. O poema – aquele poema que eu amava – estava horrível na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A música estava errada! Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a música... Percebi, então, que todo texto literário se assemelha à música. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua “letra“ está gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata não existe como experiência estética. Está morta. É preciso que um intérprete dê vida às notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpretação do concerto n. 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade das mulheres...) as toca: seus dedos deslizam leves, rápidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum tropeção: estamos possuídos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas mãos de um pianeiro: o toque é duro, sem leveza, tropeções, hesitações, esbarros, erros: é o horror, o desejo que o fim chegue logo.

Todo texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se ele luta com as palavras, se ele não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas escolas a prática de “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz e MPB – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão os prazeres do ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de ser picado pela sua beleza é impossível esquecer. Leitura é droga perigosa: vicia... Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos - gramática, usos da partícula “se“, dígrafos, encontros consonantais, análise sintática –que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária se inicia antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à beleza. E a missão do professor? Mestre do kama-sutra da leitura...

APERITIVOS

1. “Analfabeta não é a pessoa que não sabe ler. É a pessoa que, sabendo ler, não gosta de ler.“ (Quem foi que disse isso? Acho que foi o Mário Quintana).

2. A menininha de 9 anos me explicou como as crianças na sua escola aprendiam a ler: “Aqui na Escola da Ponte não aprendemos letras e silabas. Só aprendemos totalidades...“

3. Os compositores colocam em suas partituras indicações para orientar o intérprete: lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando. Os escritores deveriam fazer o mesmo com seus textos. Há textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente não precisa dessas indicações. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.

4. “Mais valem dois marimbondos voando que um na mão“ (Almanak do Aluá).

5. Graciliano Ramos relata que, quando menino, na escola lhe ensinaram um ditado: “Fale pouco e bem e ter-te-ão por alguém“. Ele repetia o ditado mas ficava com uma dúvida: “Quem será esse ‘Tertião’?“

(Correio Popular, Caderno C, 19/07/2001.)
Espero que gostem como eu gostei.
Uma boa terça-feira a todos!

04 outubro 2011

Namore uma garota que lê

Boa tarde ao leitor que passa pelo blog neste momento para conferir o que há de novo!
Sei que estive um tanto quanto ausente nos blogs nos quais costumo comentar e peço desculpas por isso. No último dia 26 foi meu aniversário e acabei dispersando um pouco, contudo tentei agradecer a cada um pelos votos de parabéns na postagem da Letícia. No momento, estou em semana de provas e muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo, deixando-me totalmente sem tempo para responder comentários e muito pouco para fazer as postagens, as quais tento manter regularmente.
Para diversificarmos um pouco o que temos às terças-feiras, trouxe um texto já conhecido por alguns blogueiros que promete arrancar suspiros sonhadores das leitoras.

Namore uma garota que lê
Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico
Tradução e adaptação – Gabriela Ventura


Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem
problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota
que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os 

doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta, ainda que em silêncio, quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro. Compre para ela outra xícara de café. Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound ou Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma. Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você.
E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu - Cat in the Hat - e ao Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.
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Uma boa terça a todos,



28 abril 2011

Sobre cenários literários... (II)

   Olá blogueiros!
    Continuando a postagem de terça-feira, voltarei a falar dos cenários tão conhecidos nos livros.

Às margens de rios e lagos
   Perto deles estão as florestas, as matas ciliares e toda uma série de fatos ocultos pela profundeza das águas.
    Não costumam ser descritos como o mar. São mais singulares, cenários de momentos importantes que não costumam envolver muitas personagens. A beleza das águas paradas encanta e foi nela que Narciso se perdeu enquanto admirava sua própria imagem refletida.
   “Encontravam-se numa lagoa quieta, de água limpa, azul, protegida do lado de fora por um anel de grandes árvores. A única entrada, a passagem através dos caniços, parecia ter se fechado atrás deles. Poderiam estar sozinhos no mundo.
   Não foi, porém, o segredo do lago que enfeitiçou Maia, mas sua beleza. As árvores protetoras se curvaram por sobre a água; num banco de areia dourada dormia uma tartaruga, sem ser perturbada pelo barco. Grupos de flores de lótus amarelas e cor-de-rosa balançavam na água, os botões abertos ao sol.”
 IBBOTSON, Eva; Jornada pelo Rio Mar p. 90; Editora Rocco


Mundos Encantados
  
   Criar outro mundo completamente à parte da Terra, com nomes, mitologia, história, idioma e lugar próprios não é mérito de um simples autor. Assim como talvez não seja , por exemplo, de um escritor extremamente prestigiado mas que, simplesmente, não é capaz de gerar um universo diferente transmitindo as mesmas emoções humanas.
   Para criar algo do tipo não basta escrever bem e ter vocabulário rico. São necessários tempos e tempos de pesquisa, dedicação e foco no resultado que se pretende obter.
    Na área, impossível não ressaltar o mundo à parte criado por Tolkien em seu maior grau de genialidade, historiador e escritor. O Senhor dos Anéis não é simplesmente a trilogia mais assistida nos cinemas, mas a consagração do gênero mitológico, o pai de todos os fantásticos que conhecemos atualmente.
   J.K. Rowling, a autora da saga mais querida mundialmente e a segunda mulher mais rica da Inglaterra (que perde apenas para a Rainha, é), já afirmou em entrevistas que sua maior inspiração literária para dar vida ao mundo de Harry é, ninguém mais ninguém menos que Tolkien.
   “Os outros se jogaram sobre a relva cheirosa, mas Frodo continuou de pé por uns momentos, ainda pasmo e admirado. Tinha a impressão de ter atravessado uma janela alta que dava para um mundo desaparecido. Havia uma luz sobre esse mundo que não podia ser descrita na língua dele. Tudo o que via parecia harmonioso, mas as formas pareciam novas, como se tivessem sido concebidas e desenhadas no momento em que lhes tiraram a venda dos olhos, e ao mesmo tempo antigas, como se tivessem existido desde sempre. Frodo não viu cores diferentes das que conhecia, dourado e branco e azul e verde, mas eram novas e pungentes, como se naquele mesmo momento as tivesse percebido pela primeira vez, dando-lhes nomes novos e maravilhosos. Naquela região, no inverno, ninguém podia sentir saudade do verão ou da primavera. Não se podia ver qualquer defeito ou doença ou deformidade em cada uma das coisas que cresciam sobre a terra. Não havia manchas na terra de Lórien.”
TOLKIEN, J.R.R.; O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel p. 372; Editora Martins Fontes

Mansões Assombradas
   Impossível ser mais clássico no que se diz respeito a terror sem utilizar-se de mansões assombradas. Nelas, cada autor escolhe, com sua imaginação, as terríveis criaturas e espíritos que vão aterrorizar os moradores.
   Às vezes, o horror é meramente psicológico, mas as descrições não costumam fugir do contexto. São mansões de famílias ricas, com corredores extensos, pisos de madeira soltos que emitem sons, janelas quebradas, ambientes sujos e um eco de arrepiar.
   “Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no céu, eu percorri a cavalo um trecho de campo singularmente triste, e finalmente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como foi – mas, ao primeiro olhar que lancei ao edifício, uma sensação de insuportável angústia invadiu o meu espírito. Digo insuportável, pois tal sensação não foi aliviada por nada desse sentimento quase agradável na sua poesia, com o qual a mente ordinariamente acolhe mesmo as imagens mais cruéis por sua desolação e seu horror. Olhei para a cena que se abria diante de mim – para a casa simples e para a simples paisagem do domínio para as paredes frias – para as janelas paradas como olhos vidrados – para algumas moitas de juncos – e para uns troncos alvacentos de árvores mortas – com uma enorme depressão mental que só posso comparar, com alguma propriedade, com os momentos que se sucedem ao despertar de um fumador de ópio – com o momento amargo de retorno à rotina – com o terrível cair do véu.
   Eu tinha no coração uma invencível tristeza onde nenhum estímulo da Imaginação podia descobrir qualquer coisa de sublime.
  Que era – pensava eu, imóvel – que era isso que tanto me atormentava na contemplação da Casa de Usher?”
 POE, Edgar Allan; A Queda da Casa de Usher 



 
 



21 abril 2011

Eles escrevem, nós citamos: Princesa Mar a Mar

   Para quem frequenta o blog, já é sabido que eu adoro os textos da Marina Colasanti e tenho ainda mais simpatia por ela em saber que fazemos anos no mesmo dia! haha
   É por esse e outros motivos que, hoje, na postagem literária trago um conto lindíssimo da autora, muito meigo e tocante que quis compartilhar com todos vocês, queridos leitores.
   Espero que façam uma boa leitura e tenham o mesmo sentimento de admiração que eu tenho para com a autora.

Princesa Mar a Mar

   Três filhas tinha o rei. E as três queria casar.
   Há anos esperava paciente que crescessem, dia a dia medindo-lhes a altura e sopesando-lhes as tranças. Há anos pensava nos genros que lhe trariam, a ele que, não tendo filhos homens, precisava de espadas.
   Afinal, seu olhar lhe disse que a primeira filha estava pronta. E a paciência deixou de ser necessária. Imediatamente mandou chamar o mais antigo e fiel de seus embaixadores e, diante da corte reunida, deu-lhe a ordem que pretendia vir a repetir mais duas vezes: que mandasse pintar o retrato da princesa e o levasse às cortes vizinhas em busca daquele que a faria rainha.
   Logo, o Grande Pintor do Reino apresentou-se com seus longos pincéis, seus vidros de tintas e sua pequena barba. A princesa, vestida com ricas roupas, sentou-se para posar. Porém, passados dias e pronto o retrato, a corte desapontada sacudiu a cabeça. O quadro era belo, mas a princesa, ah! a princesa era muito mais bela que o quadro.
   Decapitado, sem demora, aquele que ousara enfear a filha do Rei, um novo Grande Pintor foi nomeado, para herdar cores e tarefa. Novamente a princesa posou, e ricas eram suas roupas. Mas novamente a corte sacudiu a cabeça diante do resultado. Dessa vez, de cenho franzido. A beleza da jovem havia ficado ainda mais distante.
   Ao terceiro Grande Pintor bastou olhar a princesa para concluir que não era tão grande quanto dele se esperava. Sozinho, foi entregar-se ao carrasco.
   E eis que não havia mais pintores no reino, nem Grandes nem pequenos. Ou, se os havia, tratavam de esconder-se.
– Que isso não me impeça de cumprir a ordem – disse o Embaixador ao Rei que já se inquietava. – Levarei o retrato de outra maneira.
   Escolheu no tesouro real a mais linda pérola, guardou-a num cofre pequeno, e partiu em sua carruagem rumo às fronteiras distantes do Norte.
   Longa a viagem. Quando enfim chegou ao castelo daquele monarca, chegava com ele o inverno.
– Que mais me trouxe além da neve, Senhor? – perguntou-lhe o castelão do alto do trono.
   O Embaixador contou-lhe então da filha do Rei. Que estava madura para casar. E quando o monarca pediu para ver seu retrato, aproximou-se, abriu o cofre pequeno e, sobre o fundo de veludo, exibiu a pérola.
– Assim é ela – disse, em voz alta, para que todos ouvissem. E erguendo a pérola, acrescentou: – Bela, rara, pálida. E preciosa.
   No dia seguinte, partia de volta o Embaixador, para levar ao Rei a boa nova. A primeira das suas filhas seria Rainha das Terras do Norte.
   Sem que muito tempo tivesse passado, já o Rei ordenava ao Embaixador que mandasse pintar o retrato da segunda filha e o levasse à corte do Sul.
– Pintar não é possível, sem pintor – respondeu o Embaixador. E acrescentou: – Outro é o retrato que levarei.
   Recusando a chave do tesouro que o Rei lhe estendia, desceu aos jardins, aproximou-se da mais linda roseira, cortou com o punhal o botão mais perfeito, que protegeu debaixo do manto. Em seguida, subiu na carruagem e partiu.
   Demorada, a viagem. Quando enfim chegou ao castelo daquele monarca, o verão chegava com ele.
– Que me trouxe, Senhor, além do Sol? – perguntou-lhe o castelão do alto do trono.
   Então o Embaixador contou como o Rei o havia enviado porque a segunda de suas filhas estava madura para casar. E quando o castelão pediu para ver seu retrato, tirou de debaixo do manto o botão que havia desabrochado, e exibiu à corte a mais linda das rosas.
– Ela é assim – disse, bem alto, para ser ouvido por todos. Delicada, suave, rósea. A mais nobre de todas.
   Fez uma pausa, procurou com um sorriso o olhar do monarca, e acrescentou: – E tem seus espinhos.
   O pretendente hesitou. Mas era pouca a ameaça diante de tão linda flor.
    Já no dia seguinte partia o Embaixador para levar a boa nova ao seu Rei. A segunda filha seria Rainha das Terras do Sul.
   Mal havia chegado, e o Rei ordenou que levasse à corte do Oeste o retrato da filha menor. “E que retrato será esse?”, perguntava-se curioso.
   Nem tesouro. Nem jardim. O Embaixador olhou a princesa que conhecia desde menina, olhou longamente a moça que ela havia se tornado. Depois, tomando um grande frasco de vidro, foi enchê-lo no mar.
   Protegeu o frasco em uma bolsa de couro macio. Subiu na carruagem. E partiu pela terceira vez.
   Íngreme, a viagem. E lenta, rumo às fronteiras montanhosas. Quando enfim chegou ao castelo no alto da mais alta montanha daquele reino, a tempestade chegava com ele.
– Senhor – perguntou o castelão em seu trono – , além da borrasca, que mais me trouxe?
– Trouxe-lhe a notícia de que a terceira filha do meu Rei está madura para casar – respondeu o Embaixador, contando ainda como a conhecia desde pequena, como a havia visto crescer.
   E quando o monarca perguntou como era ela, adiantou-se, abriu a bolsa macia, tirou o frasco, levantando-o bem alto, para que todos vissem.
– Ela é como o mar – disse lentamente. – Profunda e misteriosa. Cheia de riquezas escondidas. Seus movimentos obedecem à Lua.
   O monarca, que nunca havia visto o mar, olhava para o frasco e não via nada que correspondesse às palavras do Embaixador. Diante da corte havia apenas um frasco cheio de água transparente, sem segredos de peixes ou estrelas, sem conchas, sem ondas. Água, apenas, entre vidro. Nem sequer azul. Uma esposa assim, para que quereria?
   Na manhã seguinte, ao partir, o Embaixador levava consigo o monarca. Desceram e desceram pelos caminhos pedregosos, até o mar. E chegando ao mar, apearam os dois, caminharam pela areia. A espuma alcançava suas botas sem que o monarca se decidisse a voltar. Ali estava o retrato, do qual não conseguia afastar os olhos. Mas por fim, subjugado, murmurou:
– Ela é grande demais para mim.
   Pela primeira vez o embaixador regressou trazendo uma má notícia para o seu Rei. A terceira filha não seria Rainha das Montanhas do Oeste.
   O tempo não pára porque uma filha de Rei está sem marido. Assim, suas irmãs casaram, bordaram pequenos enxovais, seus filhos nasceram. E estavam começando a engatinhar, quando chegou ao castelo a notícia de que no horizonte do Leste, onde não havia fronteira porque o Reino terminava no mar, uma vela havia surgido.
   Cavaleiros velozes entregaram no castelo a informação de que um grande barco trazendo o Monarca dos Homens Navegadores acabara de atracar. E este se aproximava com seus guerreiros.
   Preparou-se a defesa. Quando os estrangeiros chegaram, centenas de olhos escondidos espiaram por trás das seteiras. Mas os guerreiros traziam as espadas embainhadas, presos os escudos nos arreios.
– O que traz, Senhor, além dos bons ventos? – perguntou o Rei do alto do seu trono, quando o monarca apareceu finalmente à sua frente.
   Então o visitante contou como havia sabido que a mais jovem das princesas estava madura para casar. Como, sem tê-la visto, a conhecia desde sempre. Como, conhecendo-a, queria casar com ela.
   E porque o Rei parecia não entender, adiantou-se, abriu a camisa. Depois virou-se para que todos vissem. E todos viram. Tatuados em seu peito, peixes e conchas entrelaçavam-se nas ondas, estrelas-do-mar deixavam-se levar pela espuma.
– Aqui está o seu retrato – disse, alto, para que todos ouvissem – gravado sobre o meu coração.
   A terceira filha do Rei também ouviu. Olhou para aqueles olhos, azuis de tanto se debruçarem sobre a água. E soube, com quanta alegria soube, que seu marido havia chegado.

COLASANTI, Marina. “A princesa mar a mar”, in Longe como o meu querer, editora Ática. São Paulo, 1997.


24 março 2011

Leia mais: Crônicas (II)

   Ainda na semana passada falávamos sobre crônicas e hoje resolvi dar continuidade ao assunto por um motivo simples, uma crônica maravilhosa escrita por Vicente Cascione, um advogado conceituadíssimo que, inclusive, defende a Uniban no caso Geisy Arruda, e é cronista semanal da AT Revista, do Jornal A Tribuna de Santos, que merece o prestígio de todos vocês.

   MEU AMOR
por Vicente Cascione, domingo, 3 de outubro de 2010
 "E que se tivesse de voltar no tempo, você me daria a mão outra vez, e seguiríamos juntos. E se fosse assim, eu teria ficado à margem do caminho". (Fragmento de uma crônica escrita para Silvia em 20/12/1981, aos 22 anos de um amor para sempre).
   Eu era um adolescente de 17 anos. Ela ia completar 12, quando veio de longe, com sua família, para morar num sobrado vizinho à minha casa de infância. No dia da mudança, eu a contemplei além do muro dos nossos quintais. Surpreendida, diante de meu olhar extasiado naquele momento sublime, minha mãe perguntou-me como uma menina-criança-desconhecida, conseguia despertar em mim o sentimento que eu não conseguia esconder.
   Comovido com a absoluta certeza apenas explicável além da restrita condição humana, respondi: "Mãe, eu vou me casar com essa menina".
   E assim começou uma vida para sempre, desde o namoro imediato, considerado absurdo, por causa de nossas idades, até o instante desta dor indizível, em que ela partiu sem dizer adeus.
   Nestas minhas incontáveis crônicas de domingo, já escrevi sobre todas as minhas saudades, dores, desesperanças e amarguras. Revelei os rotineiros tormentos deste cronista sentimental, observador das coisas do seu tempo, do seu mundo e da vida.
   Mas nunca imaginei que houvesse uma dor capaz de doer tanto. Uma saudade que não consente um instante de alívio, uma ausência que semeia infinitos vazios em todos os espaços, uma falta que faz insuportável a passagem do tempo, um sentimento de que perdi o único lado bom de minha alma e de meu corpo, esses restos mortais em que eu subsisto depois que minha mulher, tão amada, levou com ela todas as partes vivas do meu ser.
  Sinto que talvez sobreviver seja possível somente à custa de um milagre indesejável capaz de permitir que uma dor letal e absoluta coexista com a própria vida. Milagre indesejável cometido por esse despótico destino que me concedeu a felicidade, durante meio século de minha vida, mas que, por ter-me dado tanto, ou tudo, impôs-me a compensação de tornar-me submisso a uma dor e a uma saudade, sob cujo sofrimento parece-me ser impossível resistir.
   Creio ter adivinhado o inacreditável momento do desencontro, quando escrevi a crônica antecedente ao dia em que ela partiu: "Muita vez, apesar das distâncias que se abriram, das ausências que se consumaram, das fugas e dos abandonos... há um sentimento para sempre marcado a ferro e fogo no tempo passado, sobre a pele de nossa vidas. Há uma saudade, aparentemente sem sentido, a arder em algum canto de nossa alma. Uma lágrima que volta, teimosamente, nos olhos que não ficarão enxutos até o fim dessa estrada. Um soluço contido, uma dor secreta, uma falta vital, uma doce lembrança de instantes vividos, uma memória trágica a coexistir com esperanças mortas, uma doce amargura nos recônditos de corações exaustos.
   Talvez fosse minha derradeira confissão deste amor infinito. Talvez fosse o adeus irresignado. Talvez fosse o derradeiro beijo. O último olhar. A ânsia de voltar a ver Silvia além do muro do passado, e de recomeçarmos, outra vez, ali, desde crianças, a nossa vida.
   Minha amada. Você me entregou seu amor absoluto, eterno e calmo. Fez-me ser o que sou e me conduziu sempre ao meu destino, com sua coragem, seu caráter, sua sabedoria, sua têmpera, sua simplicidade, sua pureza e sua bondade.
   Por isso, semeou, também, uma família unida e feliz.
   Agora, perdido de mim mesmo, procuro suas mãos. E sinto que, sem elas, inevitavelmente, eu ficarei à margem do caminho...

A jornalista Sílvia do Leme Cascione faleceu aos 62 anos, no dia 23 de setembro de 2010, tendo sido vítima de atropelamento.

17 março 2011

Leia mais: Crônicas

   Estava lendo ainda ontem um livro da biblioteca de minha escola, e fiquei me perguntando porque as pessoas têm tanto preconceito contra aqueles exemplares fininhos de capa mole, com um carimbo de "Livro do Professor - Venda Proibida". Eu não tenho e estando sedenta de alguma leitura, escolhi um exemplar muito, muito bom da Editora Ática chamado Acontece na Cidade.
   Acontece que Acontece na Cidade é um livro muito, muito especial. Entretanto, é vítima constante de brincadeirinhas do gênero "É livro de Ensino Fundamental, é livro para aluno de 12 anos...", etc e tal. Não acredito nisso, eu realmente não acredito que haja idade correta para ler um determinado livro. É claro que se uma criança pegar um livro que fale de guerra e regime islâmico como, por exemplo, A Cidade do Sol, ela provavelmente não entenderá ou não levará a sério muita coisa. Mas com esse livro é diferente. Ele fala de assuntos do dia a dia de quaisquer pessoas que morem em cidades grandes. Paulistanos, cariocas, gaúchos, todos nós estamos presentes aí de uma forma especial. Com as crônicas é diferente. Não há anos suficientes nem demais para que o leitor se entretenha com esse texto maravilhoso que mistura o melhor da literatura e do jornalismo. Essa miscelânea gostosa de poesia com cotidiano, de simplicidade com questões delicadas, esse texto de escritor com um quê de jornalista astuto.
    Do livro, ficam-me memórias de ótimas crônicas. Delas, destaco uma que achei especialmente adequada à vida moderna, à rotina e à semana. Aproveitem a leitura!

Weheartit.com
 Eu sei, mas não devia


   Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
   A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
   A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
   A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
   A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
   A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
   A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
   A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
   A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
   A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmar a 26 de setembro (assim como eu) de 1937, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

Fonte: Releituras