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29 janeiro 2013

Fragmentando Memórias Póstumas de Brás Cubas

Quem lê o blog já está cansado de ouvir-me citar Machado de Assis para lá e para cá. Coincidentemente, no entanto, nunca havia lido uma das obras mais importantes da tríade que o consagrou como um modelo do Realismo brasileiro, composta por Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas (não nesta ordem cronológica). 

Pensando nisso, então, trago-lhes hoje alguns fragmentos desta obra prima que, como muitos já sabem, tem um morto como narrador. E uma dedicatória nada sutil aos vermes que corroem seu corpo. Irônica como o autor sempre consegue ser, de uma ironia ácida e refinada. Porque Machadão é sempre merecedor de mais algum espaço.
Dedicatória:
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.Memórias Póstumas de Brás Cubas - Ed. Lafonte

08 agosto 2012

Fragmentando "Belezas Perigosas"

Quem frequenta o blog sabe bem que esta não é a primeira vez que menciono um dos livros da trilogia Gemma Doyle por aqui, assim como provavelmente não será a última, simplesmente pelo fato de eu adorar a escrita da Libba Bray e o universo fantástico, obscuro e completo que ela criou em torno de Gemma numa Inglaterra tão repressora para a mulher. 

Ainda que seja um livro juvenil, temos uma carga de problemas e situações que inspiram seriedade a todo o momento, e um clima intenso, hostil em que a autora conduz sua narrativa em primeira pessoa e no presente, tornando tudo mais rápido, mais forte e único. Belezas Perigosas, como volume introdutório, é também considerado por alguns como o melhor dos três. No meu caso, acho particularmente complicado qualificá-los, mas tenho grande apreço por este livro que devorei em apenas um dia e já reli várias vezes.

Para lhes dar uma prévia do que é, exatamente, Libba Bray, selecionei alguns trechos do livro que pouco revelam sobre sua essência (para quem não gosta de spoilers), mas que certamente despertarão a curiosidade de quem aprecia o gênero.

03 abril 2012

Trechos: Lygia Fagundes Telles

Quero ficar só. Gosto muito das pessoas, mas às vezes tenho essa necessidade voraz de me libertar de todos."
Disparadamente minha autora favorita, Lygia Fagundes Telles é paulistana e nasceu a 19 de abril de 1923, quarta filha do casal Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário Silva Jardim de Moura. Logo jovem, desenvolveu o interesse pela leitura através das histórias que ouvia entre as rodas de pajens e crianças durante suas viagens em decorrência do trabalho do pai, advogado, que se mudava constantemente para o ofício.

Aos 15 anos, em 1938, publicou seu primeiro livro de contos, chamado Porão e Sobrado. Em 1941, iniciou o curso de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco e lá, nas rodas literárias, conheceu nomes como Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, com quem se casaria mais tarde, entre outros. Para garantir seu sustento, colaborava com jornais e trabalhava como assistente do Departamento Agrícola do Estado de São Paulo.

Lygia participou ativamente de protestos contra o Estado Novo e sua ditadura ao lado de artistas como os Andrades, Tarsila do Amaral,  Anita Mafaldi e Heitor Villa-Lobos. Após sua primeira publicação, voltou ao mercado editorial com Praia Viva em 1944 e fortaleceu sua eloquência com o romance Ciranda de Pedra. Consagrou-se verdadeiramente, entretanto, com os famosos Verão no Aquário, Antes do Baile Verde, As Meninas, Seminário de Ratos, A Estrutura da Bolha de Sabão, As Horas Nuas e A Noite Escura e Mais Eu, consecutivamente.

Seu trabalho, no geral, rendeu-lhe muitos prêmios importantes, dos quais destacam-se 3 Jabuti de Melhor Livro do Ano e Ficção; o prêmio Coelho de Neto, concedido pela Academia Brasileira de Letras e o Camões, em 2005, o mais importante da literatura em língua portuguesa.

Fonte: Releituras 

"Quero te dizer que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões."
(TELLES, Lygia Fagundes - As Meninas - 2009)

"[...] quando na realidade o amor é uma coisa tão simples... Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida porque tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, não existe nada mais triste no mundo do que fingir que há vida, onde a vida acabou."
(TELLES, Lygia Fagundes - Verão no Aquário -  2010)

"A beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa incerteza."
(TELLES, Lygia Fagundes - Antes do Baile Verde - 2009)

"Por que não lhe disse antes?
Apertá-lo demoradamente contra o meu peito e dizer: não disse porque pensava que tinha pela frente a eternidade. Só me resta agora esperar que aconteça outra vez, vislumbro esse encontro - mas vou reconhecê-lo? E vou me reconhecer nos farrapos da memória do meu eu?
Peço que me faça um sinal e responderei ao código secreto na mente e no silêncio dos navios que se comunicam quando cruzam no mar."
(TELLES, Lygia Fagundes -  A Disciplina do Amor - 2010)

"A perplexidade do moço diante de certas considerações tão ingênuas, a mesma perplexidade que um dia senti. Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito de rir sem vontade, de falar sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade... O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul, fica azul, numa vermelha, vermelho. Um dia se olha no espelho, de que cor eu sou? Tarde demais para sair pela porta afora."
(TELLES, Lygia Fagundes - Antes do Baile Verde - 2009)

"Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago
até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".
(TELLES, Lygia Fagundes - Antes do Baile Verde - 2009)


16 março 2012

Trechos: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

Estava querendo implantar há um bom tempo uma seção de trechos no blog e achei que a sexta-feira veio a calhar. Na hora de decidir qual seria o tema, se escolheria um autor, um livro ou uma categoria abordada em vários, acabei pegando, como quem nada quer, o meu exemplar de Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios novamente e me lembrei do porquê de eu gostar tanto deste livro, já resenhado aqui.

Foram tantos os trechos maravilhosos marcados nele que acabaram ficando fora da resenha, que resolvi então disponibilizá-los aqui para compartilhar com os leitores uma verdadeira dádiva da literatura moderna brasileira, um livro de Marçal Aquino, publicado pela Companhia das Letras.

"Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes; As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletidos nos seus olhos escuros."
p. 15

"O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche - "Há sempre um pouco de razão na loucura" -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para a razão, apenas para mais loucura".
p. 22

"Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter."
p. 22

"Alguns amores levam à ruína. Eu soube disso desde a primeira vez em que Lavínia entrou na minha casa."
p. 25

"A grande desgraça é que as lembranças não bastam para confortar os amantes. Nunca aplacam. Ao contrário: servem só pra espicaçar as chagas daqueles que foram condenados à lepra do amor não correspondido."
p. 33

"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdoo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse."
p. 159

"Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg. Não sei que nome você daria a isso. Bem, não importa muito, chame do que quiser. Eu chamo de amor."
p. 228



28 abril 2011

Sobre cenários literários... (II)

   Olá blogueiros!
    Continuando a postagem de terça-feira, voltarei a falar dos cenários tão conhecidos nos livros.

Às margens de rios e lagos
   Perto deles estão as florestas, as matas ciliares e toda uma série de fatos ocultos pela profundeza das águas.
    Não costumam ser descritos como o mar. São mais singulares, cenários de momentos importantes que não costumam envolver muitas personagens. A beleza das águas paradas encanta e foi nela que Narciso se perdeu enquanto admirava sua própria imagem refletida.
   “Encontravam-se numa lagoa quieta, de água limpa, azul, protegida do lado de fora por um anel de grandes árvores. A única entrada, a passagem através dos caniços, parecia ter se fechado atrás deles. Poderiam estar sozinhos no mundo.
   Não foi, porém, o segredo do lago que enfeitiçou Maia, mas sua beleza. As árvores protetoras se curvaram por sobre a água; num banco de areia dourada dormia uma tartaruga, sem ser perturbada pelo barco. Grupos de flores de lótus amarelas e cor-de-rosa balançavam na água, os botões abertos ao sol.”
 IBBOTSON, Eva; Jornada pelo Rio Mar p. 90; Editora Rocco


Mundos Encantados
  
   Criar outro mundo completamente à parte da Terra, com nomes, mitologia, história, idioma e lugar próprios não é mérito de um simples autor. Assim como talvez não seja , por exemplo, de um escritor extremamente prestigiado mas que, simplesmente, não é capaz de gerar um universo diferente transmitindo as mesmas emoções humanas.
   Para criar algo do tipo não basta escrever bem e ter vocabulário rico. São necessários tempos e tempos de pesquisa, dedicação e foco no resultado que se pretende obter.
    Na área, impossível não ressaltar o mundo à parte criado por Tolkien em seu maior grau de genialidade, historiador e escritor. O Senhor dos Anéis não é simplesmente a trilogia mais assistida nos cinemas, mas a consagração do gênero mitológico, o pai de todos os fantásticos que conhecemos atualmente.
   J.K. Rowling, a autora da saga mais querida mundialmente e a segunda mulher mais rica da Inglaterra (que perde apenas para a Rainha, é), já afirmou em entrevistas que sua maior inspiração literária para dar vida ao mundo de Harry é, ninguém mais ninguém menos que Tolkien.
   “Os outros se jogaram sobre a relva cheirosa, mas Frodo continuou de pé por uns momentos, ainda pasmo e admirado. Tinha a impressão de ter atravessado uma janela alta que dava para um mundo desaparecido. Havia uma luz sobre esse mundo que não podia ser descrita na língua dele. Tudo o que via parecia harmonioso, mas as formas pareciam novas, como se tivessem sido concebidas e desenhadas no momento em que lhes tiraram a venda dos olhos, e ao mesmo tempo antigas, como se tivessem existido desde sempre. Frodo não viu cores diferentes das que conhecia, dourado e branco e azul e verde, mas eram novas e pungentes, como se naquele mesmo momento as tivesse percebido pela primeira vez, dando-lhes nomes novos e maravilhosos. Naquela região, no inverno, ninguém podia sentir saudade do verão ou da primavera. Não se podia ver qualquer defeito ou doença ou deformidade em cada uma das coisas que cresciam sobre a terra. Não havia manchas na terra de Lórien.”
TOLKIEN, J.R.R.; O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel p. 372; Editora Martins Fontes

Mansões Assombradas
   Impossível ser mais clássico no que se diz respeito a terror sem utilizar-se de mansões assombradas. Nelas, cada autor escolhe, com sua imaginação, as terríveis criaturas e espíritos que vão aterrorizar os moradores.
   Às vezes, o horror é meramente psicológico, mas as descrições não costumam fugir do contexto. São mansões de famílias ricas, com corredores extensos, pisos de madeira soltos que emitem sons, janelas quebradas, ambientes sujos e um eco de arrepiar.
   “Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no céu, eu percorri a cavalo um trecho de campo singularmente triste, e finalmente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como foi – mas, ao primeiro olhar que lancei ao edifício, uma sensação de insuportável angústia invadiu o meu espírito. Digo insuportável, pois tal sensação não foi aliviada por nada desse sentimento quase agradável na sua poesia, com o qual a mente ordinariamente acolhe mesmo as imagens mais cruéis por sua desolação e seu horror. Olhei para a cena que se abria diante de mim – para a casa simples e para a simples paisagem do domínio para as paredes frias – para as janelas paradas como olhos vidrados – para algumas moitas de juncos – e para uns troncos alvacentos de árvores mortas – com uma enorme depressão mental que só posso comparar, com alguma propriedade, com os momentos que se sucedem ao despertar de um fumador de ópio – com o momento amargo de retorno à rotina – com o terrível cair do véu.
   Eu tinha no coração uma invencível tristeza onde nenhum estímulo da Imaginação podia descobrir qualquer coisa de sublime.
  Que era – pensava eu, imóvel – que era isso que tanto me atormentava na contemplação da Casa de Usher?”
 POE, Edgar Allan; A Queda da Casa de Usher 



 
 



26 abril 2011

Sobre cenários literários...

   Ao ler um livro, é impossível não nos atermos aos detalhes, desde a composição emocional da personagem em questão até os cenários, os tantas vezes imaginados cenários nos quais se passam as nossas histórias favoritas.

   Quem nunca parou para pensar, nunca constituiu em sua mente a imagem do local aonde aquela cena inesquecível do clímax do livro se passava? Pois foi pensando nisso que selecionei fotos de algumas das paisagens mais queridas por diversos escritores e acrescentei algumas informações a respeito de gêneros, livros, além de trechos passados nos mesmos.

Castelos
    Para os fãs da literatura fantástica ou ainda da medieval, o cenário é bastante conhecido e, normalmente, querendo ou não, é desenvolvido em algum lugar afastado que localiza-se na Antiga Europa.
   Autores prestigiadíssimos como J.R.R. Tolkien e J.K. Rowling consagraram suas sagas adoradas mundialmente (O Senhor dos Anéis e Harry Potter, respectivamente) em castelos, por exemplo.
"- Vocês vão ter a primeira visão de Hogwarts em um segundo - Hagrid gritou por cima do ombro -, logo depois dessa curva.
   Ouviu-se um Aooooooh muito alto.
   O caminho estreito se abrira de repente até a margem de um grande lago escuro. Encarrapitando no alto de um penhasco na margem oposta, as janelas cintilando no céu estrelado, havia um imenso castelo com muitas torres e torrinhas."
ROWLING, J.K.; Harry Potter e a Pedra Filosofal, p.99 ; Editora Rocco

 Escolas e Internatos
   Os leitores dos mais aos menos assíduos já estão cansados de saber que o cenário predominante da literatura juvenil hoje e sempre é o das escolas. Desde tempos mais remotos, quando eram internatos ou instituições de ensino para moças, os lares do aprendizado preencheram a cabeça de muitos jovens com aventuras e histórias extraordinárias.

   Quase todos os personagens queridinhos atualmente passaram pela escola em algum momento de suas trajetórias literárias. Lá conheceram seus amigos,os primeiros romances e paixonites despertaram, as responsabilidades da vida lhes foram impostas.
   Em obras contemporâneas, temos os exemplos das amigas que se conheceram em Gossip Girl e Pretty Little Liars. Tratando-se de paixões, quase todos os juvenis encontram o amor de suas vidas eternas na escola. Haja visto os mais vampirescos tais quais, impossível não citar, Crepúsculo, Vampire Diaries e toda essa linha de caninos maiores (porém de muita duvidosa braveza). Isso não é, afinal, novo. As escolas vêm de muito tempo atrás nas histórias e aparecem em clássicos no formato de academias (A Inglaterra vitoriana de Jane Austen), seminários (Os polêmicos de Machado de Assis e outros realistas brasileiros como Gonçalves Dias e Raul Pompéia), internatos, até chegarem às escolas que temos atualmente.

   “A carruagem sobe a colina que vai dar na porta principal de Spence. Estico a cabeça para fora da janela para olhar o enorme edifício. Tem alguma coisa se projetando do telhado. É difícil distinguir o que é naquela luz fraca do anoitecer. A lua sai de trás das nuvens e eu as vejo claramente: gárgulas. O luar passeia sobre o telhado, iluminando pedaços das figuras – dentes afiados, uma boca arreganhada, olhos raivosos.
   Bem-vinda à escola para moças, Gemma. Você vai aprender a bordar, a servir chá, a fazer reverência. Ah, por falar nisso, você corre o risco de ser exterminada no meio da noite por uma das terríveis criaturas aladas do telhado.”
BRAY, Libba; Belezas Perigosas, p. 39; Editora Rocco


Bibliotecas
   As bibliotecas costumam ser um apêndice das próprias escolas ou castelos, mas têm uma história toda especial à parte.
   Quem não se lembra de Hermione, Harry e Rony na seção reservada da Biblioteca de Hogwarts em busca de informações secretas? Quem não se empolgou com Dan Brown pelas bibliotecas do Vaticano? E quem não se envolveu nos romances escondidos que passaram entre a poeira e os livros com diversas personagens modernas?

   “O tal Isaac nos convidou a entrar com um leve assentimento. Uma penumbra azulada cobria tudo, insinuando apenas os traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de afrescos repleta de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Acompanhamos o vigia através daquele corredor palaciano e chegamos a uma grande sala circular, onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula esfaqueada por focos de luz que desciam desde o alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros se erguia da base até a cúspide, desenhando uma colméia em cuja trama viam-se túneis, escadas, plataformas e poentes que deixavam adivinhar uma biblioteca gigantesca, de geometria impossível. Olhei para meu pai, boquiaberto. Ele me sorriu, piscando o olho.
   - Daniel, bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos.”
ZAFÓN, Carlos Ruiz; A Sombra do Vento, p. 9; Editora Suma de Letras

Igrejas
   As casas religiosas servem, muitas vezes, de paisagem para os segredos dos refugiados ou não sob seus dogmas. São lugar de encontros proibidos, paixões oprimidas, proteção e, muitas vezes, significam completamente o contrário, fazendo a linha mais gótica e pitoresca, deixando um cenário tão divino completa e erroneamente macabro.
  “Ela não respondeu à própria pergunta, mas, quando Gabriella levantou os olhos apavorados, tudo o que pôde ver foi uma cruz enorme com um Cristo moribundo e coberto de sangue, que a fez berrar ainda mais alto por tudo o que aquilo significava.”
STEEL, Danielle; Um Longo Caminho para Casa p. 80; Editora Record

Cemitérios
    Inspirando mais medo e fazendo parte, especialmente, das literaturas gótica e fantástica, os cemitérios fazem alusão nas obras a coisas ruins, sombrias e relativas naturalmente à morte.

   São sempre descritos com poucas cores e uma tristeza toda característica que só os santuários dos mortos podem ter.
   Autores contemporâneos como, por exemplo, Lauren Kate (de Fallen) fazem alusões aos cemitérios em suas obras. Olhando mais para trás, temos o macabro Edgar Allan Poe e Patrick Süskind, com O Perfume.
“O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios de morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.
   - É imenso, hein? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, que deprimente – exclamou ela, atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. – Vamos embora, Ricardo, chega.”
TELLES, Lygia Fagundes; Antes do Baile Verde p. 140; Companhia das Letras


   Espero que tenham gostado da postagem de hoje!
   Comentem sobre seus cenários favoritos e até mesmo os trechos. Quinta-feira trarei mais algumas paisagens famosas literariamente.
   Aguardem!





14 abril 2011

Citações românticas...

   Trago hoje aqui algumas citações de livros que adoro e me encantaram ao falar de amor de formas tão sutis, distintas e, contudo, não menos encantadoras. Como já dizia Machado de Assis, falando-se de paixões, amores e desamores: "Cada qual sabe amar a seu modo, o modo pouco importa, o essencial é que saiba amar".


  
ERRATA: [...]e juntos eles subiram para a Cidade Alta, e todas as estrelas no céu floriram.




Qual a sua citação favorita? Qual ou quais destes livros já leram? Opinem, comentem, AMEM...