07 julho 2011

07
jul
2011

Encontrei na escola #1 - Lolita, Vladimir Nabokov


Título: Lolita

Título original: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 319
ISBN: ------------
Edição: São Paulo/Rio de Janeiro 2003
Gênero: A classificação do livro é literatura norte-americana, porém, por ter sido escrito primeiramente em russo por um autor russo, classifiquemos justamente como Literatura Russa
Onde comprar: R$17,90 nas Lojas Americanas
“Irreverente e refinado, este é um dos romances mais célebres de todos os tempos. É também uma aventura intelectual que não deixa ninguém indiferente, um relato apaixonado de uma sensualidade alucinada, uma autópsia implacável do modo de vida americano. De um lado, um homem de meia-idade, obsessivo e cínico. De outro, uma garota de doze anos, perversamente ingênua. A química se faz e dá origem a uma obra-prima da literatura do nosso século. Lolita é chocante, desafia tabus, escandaliza. O livro foi incorporado ao imaginário coletivo da modernidade, e até o nome da personagem tornou-se um substantivo corrente, provas do alcance e da genialidade do autor.”

   Tive a ideia de iniciar esta coluna com o intuito de trazer livros clássicos, requeridos aos estudos e facilmente encontrados nas escolas. Acima de tudo, com o intuito de fazer o leitor enxergá-los de outra forma, como a qualquer outro livro contemporâneo.

“E, hoje, só me arrependo de não ter depositado tranquilamente a chave do “342” na portaria e deixado a cidade, o país, o continente, o hemisfério – de fato o globo, naquela mesma noite.”

   Lolita causou muitas polêmicas antes de sequer ser publicado. Lolita era para ser apenas um conto sobre um professor com um distúrbio sexual apaixonado por uma ninfeta de doze anos, uma criança, acima de tudo. Como nos é contado pelo próprio autor, o livro quase não foi publicado, tamanho o seu poder psicológico, as muitas tabus que ele traz...
   Vladimir Nabokov escreveu, acima de todas as coisas, uma obra-prima que nem aos olhos de todos será bem vista. Se você não tiver a mente aberta o suficiente às mais diversas formas de amor (a todas as vertentes deste sentimento), não lhe indico a leitura deste clássico, que provavelmente o chateará muito. Acima de tudo, poderá causar-lhe repugnância e, que lástima seria!
   A primeira vez que tentei ler este livro, se bem me recordo, tinha eu doze anos. Não sabia do que se tratava e comecei mas, logo nas primeiras páginas, horrorizada, com nojo e escandalizada diante de um amor que eu não fora capaz de entender, larguei-o. Imagine você, caro leitor, uma criança de doze anos a tentar ler um volume no qual um Humbert Humbert de meia-idade curvava-se aos encantos de uma criança nínfica de mesma idade que eu? Péssimo, provavelmente. Acho que senti medo.
   Quatro anos mais tarde, após passar por outras obras traumáticas das quais destaco O Perfume, de Patrick Süskind, crendo-me madura o suficiente para enfim compreendê-lo, creio ter feito a escolha correta porque, sinceramente falando, é um livro genial, fantástico! Ao contrário do que eu costumava pensar, ao início da leitura, Humbert Humbert não é frio como o Grenouille de Patrick Süskind, que mata virgens para obter seu aroma e a ninguém tem sentimentos verdadeiros, é um monstro. O nosso protagonista, entretanto, é parte de uma história mais trágica, um homem verdadeiramente apaixonado, louco de amores, perdido em desejo e cego a ponto de fazer qualquer coisa para tê-la, sua Dolores Haze, Lô, Dolly, sua Lolita.
   Mais uma vez, ao início, quase desisti da leitura pela repugnância que o leitor facilmente sentirá aos primeiros capítulos. A descrição cruel das ninfetas, do desejo sujo que o protagonista sente por elas é doentio. Mas a narração de Nabokov é tão, tão boa, tão bem feita que o leitor curioso logo se renderá à história e à vida condenada de H.H.
   Para compreender o que ele sente, é necessário ater-se à sua primeira história de amor. Annabel, a mocinha que conhecera quando jovem e com quem teve um relacionamento infantil que foi crescendo, tornando-se um desejo ardente de menino, desejo este frustrado após serem várias vezes flagrados ou quase flagrados tentando amarem-se, o ponto mais alto de sua paixão. Para desespero de Humbert, a menina morre alguns meses depois de partir de onde morava e o fantasma daquela mocinha, ninfeta aos seus olhos agora adultos, persegue-o por toda a sua vida, sempre insaciavelmente desejando estar com outras que substituam Annabel, com o mesmo viço, a mesma pouca idade, meninas pubescentes.
   Reflexos de sua primeira paixão são retratadas nas primeiras páginas e ele, alcançando a meia-idade, um homem que descreve a si mesmo como atraente, o típico cavalheiro europeu, um vilão de sua aparência, casa-se com uma mulher de sua idade para manter os modos de qualquer homem comum. Valéria, sua primeira esposa, que lhe trai deixando-o cheio de ódio, não por tê-la amado mas por ter seu orgulho ferido, vai embora da França, de Paris, em busca de novos ares, da América, Estados Unidos da América aonde encontrará seu maior demônio, sua paixão quase que reencarnada na mocinha de doze anos na casa da qual foi parar despretensiosamente, Dolores Haze.
   Quando Humbert conhece Lolita logo lembra-se de Annabel. Tudo nela era sua outra mocinha, sua antiga paixão ainda mais viva, mais despudorada e maliciosa. O leitor, ao conhecer esta parte da história, ao vê-lo tentar seduzir a menina de doze anos que anda de soquetes, talvez sinta asco de tal relação. Mas, lendo o livro, conhecendo Lô, notará que a menina não é tão criança ou tão inocente quanto parece. Ela seduz, sente atração pelo homem e age sensualmente quando próxima a ele.

“Frígidas senhoras membros do júri! Eu imaginara que se passariam meses, talvez anos, antes que ousasse expor-me a Dolores Haze; mas às seis ela estava acordada e por volta das seis e quinze éramos tecnicamente amantes. Vou contar-lhes algo muito estranho: foi ela quem me seduziu.”

   Dolores brinca, acima de tudo, de seduzir, de ser mulher e tive verdadeira raiva dela em muitas partes. Após a morte da mãe da menina, com quem Humbert também fora casado para tornar-se o “papai” pretensioso de Lolita, os dois partem juntos em uma viagem pelos Estados Unidos, parando em vários hotéis, motéis e pousadas de estrada sempre por pouco tempo, como pai e filha, atentos a qualquer suspeita vinda de outros de sua verdadeira relação.
    A menina, nesse período, torna-se uma verdadeira insuportável, uma criança estressada, cheia de caprichos e notem, apenas uma criança. A ninfeta que deixara-se ser possuída pelo homem maduro dava-se conta de seu pesadelo, de sua solidão e o leitor passa a ter dó da mocinha desvirginada que se entregara como se fosse uma brincadeira qualquer. E Humbert sabe disso, sente a angústia, a tristeza da menina que ama e da qual não consegue se desvencilhar pelo seu vil desejo. Tornam-se escravos um do outro e como é cruel esta realidade!
   O livro toma fins inesperados pelos quais o leitor torce, anseia, aguarda e até se surpreende. A narração extremamente psicológica mostra um outro lado de H.H., um pedófilo que, acima de tudo, fora um homem apaixonado. Não há como não sentir pena dele em certos momentos, como não compreender seu sentimento complexo à Lolita, que com ele apenas brincou e a quem, acima de tudo, jamais amou.
   Um livro sensual, sim, mas, acima de tudo, sensível que retrata de uma forma assustadora, angustiante, a paixão em seu tom mais agudo e proibido.

Avaliação final:
Nota 5 de 5 (Ótimo)