29 setembro 2011

29
set
2011

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios por Marçal Aquino

Título: Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios
Autor: Marçal Aquino
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 229
ISBN: 978-85-359-0736-0
Gênero: Literatura Brasileira; Romance

Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, saudável. O que diferencia uma pessoa da outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas.
Numa cidade do Pará à beira de uma corrida do ouro, o fotógrafo Cauby se envolve numa história de amor clandestino com Lavínia, uma mulher tão sedutora quanto instável. Tendo por pano de fundo os conflitos entre garimpeiros e uma mineradora, o desfecho da história se anuncia desde as primeiras linhas: dado a premonições sombrias sobre o próprio destino, o fotógrafo trata de cumpri-los à maneira dos personagens trágicos.
"Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes; As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletidos nos seus olhos escuros."
Intensidade não falta à peculiar obra de Marçal Aquino, um autor brasileiro que faz jus à literatura nacional com um modernismo todo reinventado, heróis problemáticos e um "fogo" todo naturalista, fogo de amor.

De um lado, Cauby, um fotógrafo paulista na casa dos quarenta, homem viajado, notável apreciador de música clássica, dos livros e dos fluidos da maconha. Em contrapartida, Lavínia. Mulher sedutora, jovem, ex-prostituta, abusada na adolescência, casada com um pastor e inconstante, completamente inconstante. Dois mundos paralelos que se chocam em forma de uma paixão cheia de faíscas, amor sexualmente transmissível, expressão utilizada, inclusive, antes do início da narrativa na frase: "O amor é sexualmente transmissível".

Após mudar-se para uma cidade no interior do Pará de mineiradoras e um clima notavelmente hostil, Cauby revelava algumas foto com Chang, o chinês pedófilo, quando a viu, por acaso, num dos retratos em exposição. Desejoso desde o primeiro relance naquela foto com luz adequadíssima - visão de fotógrago -, o homem jamais poderia imaginar que a dona de tais olhos e belezas encontrava-se, em carne e osso, ao seu lado. Ao vê-la, o furacão tumultuoso de sua vida dali em diante começa.
" De acordo com o professor Schianberg (op. cit.), não é possível determinar o momento exato em que uma pessoa se apaixona. Se fosse, ele afirma, bastaria um termômetro para comprovar sua teoria de que, nesse instante, a temperatura corporal se eleva vários graus. Uma febre, nossa única sequela divina. Schianberg diz mais: ao se apaixonar, um "homem de sangue quente" experimenta o desamparo de sentir-se vulnerável. Ele não caçou; foi caçado."
Aquino redigiu uma narrativa sem rodeios, sem princípios e que deu completamente certo. O texto é tão natural, tão despretensioso e, ainda assim, capaz de impressionar com tantas citações lindíssimas que fazem alusões à obra de Schianberg, um filósofo fictício, diga-se de passagem, inventado pelo autor com tamanha criatividade ao explicar tantos feitos por parte do homem e os efeitos de amar.

O livro é divido em três partes: "O amor é sexualmente transmissível", "Carne-viva" e "Postais de Sodoma à luz do primeiro fogo". Sendo a primeira e a última narradas por Cauby, das quais gostei especialmente por intercalarem, entre outras histórias figurantes, a dos moradores da pensão de Dona Jane e do careca com Marinês, sua eterna amada. A segunda parte, não menos valiosa e de suma importância à problemática tem um narrador onisciente que mostra o passado de Lavínia e seu encontro com o marido, o pastor Ernani. Entre outros detalhes na narrativa da história, um que o leitor não deixará de notar é a falta de travessão que, a propósito, em nada atrapalha a obra, apenas a enriquece com suas falas intercaladas e quase sempre, surpreendentes.

Ainda que sejam em sua maioria personagens extremamente problemáticos, é difícil não se encantar com eles. Cauby e seu jeito de "homem de sangue quente" rendido aos encantos de Lavínia. Esta, que tem uma personalidade extremamente bem composta. Por vezes, a moça é a deprimida, acanhada que nem se deixa ser tocada; em outras é fogosa, apelidada carinhosamente de Shirley por Cauby quando pedia para que ele fizesse dela uma mulher, consumiam-se. Ernani, o pastor traído, não é odioso ou um coitado infeliz, como se espera. É um grande homem, salvador da alma da Lavínia que usava drogas para desligar-se do mundo e prostituir-se, apaixonado e devoto às inconstâncias de seu furacão. O careca comove ao falar de sua paixão por Marinês até o último dia dela. Dona Jane, o menino da pensão, Viktor Laurence e até mesmo Chang, que mantinha casos com meninos e os fotografava, não conseguem deixar de despertar um sentimento de carinho no leitor, que tenta compreendê-los e enxergar sua humanidade através de seus defeitos. Não há mocinhos e vilões, há um destino que os une e depois separa, contribuindo para o realismo da obra.

Importante também ressaltar que a narrativa de Cauby se passa no presente, de certa forma, depois de tudo que está sendo narrado. A grande expectativa do leitor é saber quais fatos o levaram a tal fim e o que virá pelo futuro, outra grande tirada do autor.

Há certas antíteses e paradoxos no livro que merecem realce, como a existência de tantos amores em uma cidade extremamente banalizada, cheia de ódio e brigas. A personalidade oscilante da Lavínia depressiva e da outra, extremamente empolgada. A mulher que não fotografa humanos e o homem que apenas os fotografa. O lirismo nas passagens belíssimas que se reveza com um "chulo" despretensioso em forma de palavras de calão. Detalhes que fazem toda a diferença.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios é um grande livro, uma obra valiosa de nossa literatura nacional que tem beleza e brilho desde seu título imponente até as suas últimas palavras, nas 229 páginas que prometem passar muito rapidamente e deixar saudades...
" O papel dobrado que encontrei continha uma mensagem curta. Daria um telegrama lacônico e definitivo. Uma notícia primordial de um amor vira-lata. Apenas duas palavras. Escritas numa letra redonda, graciosa, quase infantil.
Amo você.
Entendeu agora por que eu fiquei?"
 Avaliação Geral:
 Nota 5 de 5 (Ótimo)

Uma boa quinta-feira a todos,