18 dezembro 2011

Introduzindo Zafón: 1º capítulo de "El Prisionero del Cielo" traduzido

Quem acompanhou a primeira edição do Introduzindo Autores na sexta-feira pôde conhecer um pouco mais a respeito do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón. Quem não teve a oportunidade pode ler AQUI ou se, simplesmente, for fã do autor e já tiver lido A Sombra do Vento, aproveitar a oportunidade de ler o primeiro capítulo traduzido em primeira-mão da continuação da história de Daniel Sempere, El Prisionero del Cielo.


El Prisionero del Cielo, de Carlos Ruiz Zafón (no Skoob)

Barcelona, 1957. Daniel Sempere e seu amigo Fermín, os heróis de A Sombra do Vento, voltam novamente à aventura para enfrentar o maior desafio de suas vidas. Justamente quando tudo começava a lhes sorrir, um personagem inquietante visita a livraria Sempere e ameaça revelar um terrível segredo enterrado há décadas na obscura memória da cidade. Ao conhecer a verdade, Daniel compreenderá que seu destino o leva inexoravelmente a enfrentar a maior das sombras: a que está crescendo em seu interior. Transbordante de intriga e emoção, El Prisionero del Cielo (O Prisioneiro do Céu) é um romance magistral onde os leitores de A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo convergem através da magia da literatura e que nos conduz para o enigma que se oculta no coração do Cemitério dos Livros Esquecidos.
Os créditos da tradução a seguir são devidos integralmente ao autor Breno Melo. Não copie o conteúdo, total ou parcial, sem autorização do mesmo.



1

Barcelona, ​​dezembro de 1957
Naquele ano a época do Natal deu para amanhecer todos os dias monótona e com geada. Uma penumbra azulada tingia a cidade, e as pessoas iam cobertas dos pés à cabeça e desenhando com o hálito traços de vapor no frio. Eram poucos os que, nesses dias, paravam para contemplar a vitrine de Sempere e Filhos e menos ainda aqueles que se aventuravam a entrar e perguntar por aquele livro perdido que os havia estado esperando por toda a vida e cuja venda, exceto poesia(1), teria contribuído para remendar as precárias finanças da livraria.

— Tenho certeza de que hoje será o dia. Hoje nossa sorte mudará — proclamei animado com o primeiro café do dia, puro otimismo em estado líquido.

Meu pai, que estava desde as oito horas dessa manhã batalhando com o livro caixa e fazendo malabarismos com lápis e borracha, ergueu a vista do balcão e observou o desfile de clientes fugidios rua abaixo.

— O Céu te ouça, Daniel, porque neste ritmo, se não aproveitarmos a época do Natal, em janeiro não vamos ter nem para pagar a conta da luz. Alguma coisa havemos de fazer.
— Ontem Fermín teve uma ideia — propus —. De acordo com ele, é um plano magistral para salvar a livraria da falência iminente.
— Não morra sem me dizer.

Citei textualmente:

Talvez se eu fosse a decoração da vitrine, vestindo apenas cuecas, conseguiríamos que alguma fêmea ávida por literatura e emoções fortes entrasse para comprar, porque dizem os entendidos do assunto que o futuro da literatura depende das mulheres, e juro por Deus que está para nascer criada capaz de resistir ao apelo rústico deste corpo serrano — enunciei.

Ouvi atrás de mim que o lápis de meu pai caía no chão e me virei.

— Fermín dixit(2) — acrescentei.

Eu tinha pensado que meu pai iria sorrir diante da ideia de Fermín, mas, ao comprovar que não parecia despertar de seu silêncio, olhei para ele desconfiado. Sempere Pai não só não parecia achar graça alguma em semelhante absurdo, mas também havia adotado um semblante pensativo, como se fosse levá-lo a sério.

— Por Deus, talvez Fermín tenha acertado na mosca — murmurou.

Observei-o sem acreditar. Talvez a seca comercial que havia nos açoitado nas últimas semanas tivesse acabado por afetar a sanidade de meu pai.

— Não me diga que você vai permitir que ele passeie em roupas de baixo(3) pela livraria.
— Não, não é isso. É sobre a vitrine. Agora que você disse, me deu uma ideia... Talvez ainda estejamos em tempo de salvar o Natal.

Vi-o desaparecer no quarto dos fundos e logo voltou apetrechado com seu uniforme oficial de inverno: o mesmo casaco, cachecol e chapéu de que me lembrava desde pequeno. Bea costumava dizer que suspeitava que meu pai não tinha comprado roupas para si desde 1942 e todos os indícios faziam crer que minha mulher estava certa.

Enquanto vestia as luvas, meu pai sorriu vagamente e em seus olhos se percebia aquele brilho quase infantil que só conseguiam arrancar dele as grandes empreitadas.

— Eu te deixo sozinho só um pouco — anunciou —. Vou sair para fazer uma encomenda.
— Posso perguntar aonde você vai?

Meu pai piscou para mim.

— É uma surpresa. Você vai ver.

Eu o acompanhei até a porta e o vi se afastar em direção da Puerta del Ángel em passo firme, uma figura a mais na maré cinza de caminhantes navegando por outro longo inverno de sombra e cinzas.
_________

(1) O narrador está dizendo que os livros de poesia não davam lucro.

(2) Fermín o disse. Em latim.

(3) Note a oposição entre estas duas ideias: lá fora as pessoas vão cobertas dos pés à cabeça, e Fermín vestiria roupas íntimas dentro da livraria. No capítulo seguinte, note novamente a oposição: o hábito das freiras (Fermín quer saber exatamente o que há por debaixo da roupa dessas mulheres, que também andam cobertas dos pés à cabeça) e o sutiã de Kim Novak (roupas íntimas, de novo). Também queira notar que, ao falar de roupas íntimas, o narrador as associa a uma exposição: Fermín na vitrine para que todos o vissem; Kim Novak nas telas do Cinema, onde todos a viam. Note, ainda, outra “coincidência”: era manhã na livraria quando o narrador falou de Fermín em roupas íntimas; e era de manhã que o narrador ia ver o sutiã de Kim Novak.
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Ansiosos para os próximos capítulos? Nós também! E em breve disponibilizaremos um pouco mais aos queridos leitores do Na Parede do Quarto. Muito obrigada ao Breno, por tornar isto possível.

Um bom domingo!

3 comentários:

Juliana Kobayashi disse...

Quero MTO esse livro, sabem se tem previsão de lançamento aki no Brasil?

bjs
TÍTULOS DE LIVROS

£ädÿ disse...

não consigo descrever a minha alegria em saber que meu livro preferido tem continuação! AMEI AMEI AMEI!

Kassiane Cardoso disse...

Obrigado por colocarem a tradução do livro no blog!
assim não precisamos esperar tanto por ele(ser lançado aqui no Brasil)
=D
Beijos!!