29 março 2012

A Separação

Título original: Jodaeiye Nader az Simin
Lançamento: 2012 (no Brasil)
Direção: Asghar Farhadi
Atores: Peyman Maadi e Leila Hatami
País de origem: Irã
Duração: 123 minutos
Gênero: Drama
Status: Em cartaz

 Em tratando-se de artes, nós, do ocidente, pela tradição que é constantemente alusiva àquilo que conhecemos e gostaríamos de conhecer, acabamos, inevitavelmente, distanciando-nos de culturas distintas, como todo o apanhado da região oriental. Quando a arte é cinema, essa ignorância aos outros costumes fica ainda maior.

Para além dos portões luxuosos de Hollywood e da excelência europeia em emocionar, entretanto, há produções advindas da Ásia que estão dando o que falar, especialmente por compreenderem a polêmica região do Oriente Médio, tipicamente islâmica. É o caso deste A Separação, do diretor iraniano Ashgar Farhadi, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro ao expor um retrato de seu país sem tomar lados, mostrando habilmente ao espectador a rotina dos nativos e como a Justiça lida com um caso que envolve, simultaneamente, os direitos da mulher, a aplicação da religião e a divisão de classes.

Nader e Simin são casados há 14 anos e vivem um relacionamento estável. Começam a ter impasses, entretanto, quando Simin, a esposa, planeja morar no exterior por um tempo para trabalhar e dar melhores condições de vida à filha do casal, Termeh. Em contrapartida, Nader discorda pois, além de querer que a menina cresça em seu país, precisa cuidar do pai idoso que tem Mal de Alzheimer em um estágio muito avançado, carente de ser assistido. Decidida a partir, ainda que ame o marido, levando em consideração o fato de que o visto obtido logo deve expirar, a mulher pede divórcio para que possa ir sozinha, mas o juiz não aquiesce seu pedido, alegando que os motivos são frívolos, e tampouco Nader concorda com uma separação amigável. Contrariada, Simin volta para a casa dos pais e o esposo se vê obrigado a contratar uma empregada, Razieh, para cuidar do pai doente enquanto ele trabalha. O problema, entretanto, é que a moça extremamente devota está grávida e seu marido, que sofre de depressão por conta do desemprego, não fica sabendo de seu novo ofício. Além disso, futuramente, um terrível incidente vai envolver as duas famílias num julgamento de cunho moral e religioso.


Aparentemente, pela sinopse, alguns fatos podem ser vistos como irrelevantes de um ponto de vista ocidental, mas é daí que vamos conhecendo um pouco desse Irã que também não é, afinal, dos mais repressores entre os islâmicos se levarmos em consideração um Afeganistão e um Iraque completamente corroídos por teocracias antigas, por exemplo.

O grande trunfo de A Separação é mostrar todos os lados da sociedade iraniana. Temos uma Simin moderna, professora, que cultua com os livros, dirige e usa apenas o lenço, negando vestimentas mais fechadas como o xador ou as temidas burcas, que também não estão muito presentes no país, para falar a verdade. Seu marido, Nader, segue os mesmos padrões e apesar de não querer ir para o exterior, auxilia Termeh em seus estudos e na escola, dando-lhe o melhor para a formação de sua educação. Diria até mesmo que os dois passam por agnósticos ou ateus, tendo em vista seu descompromisso com a religião de Alá e as regras impostas pelo Islã que são, em contrapartida, seguidas à risca pela empregada Razieh, uma mulher de origens mais humildes, que se cobre mais, que teme mais e sofre com sua realidade ao lado do marido violento e descontrolado sentimentalmente.


O filme é culturalmente interessantíssimo e o espectador pode ser surpreendido em várias cenas pelo choque de costumes, como quando Razieh liga para um departamento muçulmano com uma questão de fé (uma mesquita, provavelmente) para perguntar se é pecado lavar um senhor com Mal de Alzheimer que urinou nas próprias roupas e não tem condições de fazê-lo si só.

Asghar Farhadi mostra-se todo o tempo como imparcial, retratando as consequências do julgamento e a visão de cada personagem nem como certa ou errada, mas uma visão apenas, ainda que haja mentira ou falta de integridade. Ao final, principalmente, ficam dúvidas e uma interpretação diferente ao cargo de cada espectador, que só vem para reafirmar a transparência e a suposta despretensão crítica em relação ao país de Farhadi.

Em suma, o diretor vem para mostrar os iranianos como seres humanos quaisquer, com modos de pensar, de agir, de rezar, de amar diferentes dos nossos, todavia com muitos sentimentos compartilhados capazes de ultrapassar fronteiras. Fronteiras estas superadas que até conseguiram com que os EUA, anfitriões da cerimônia do Oscar, premiassem o Irã, um de seus maiores inimigos mundiais no momento em termos nucleares, por sua sensível forma de fazer arte.








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