05 novembro 2012

Garotos Malditos, de Santiago Nazarian

Ludo sempre foi um garoto exótico, diferente dos outros; a começar pelo seu nome: Ludovique. Fã de filmes de terror, rockeiro até o último tom, apaixonado por piercings, meio antipático. Apesar disso, no entanto, costumava gostar de sua autenticidade numa sala de aula com tantos outros adolescentes comuns. Para ele, seu estilo alternativo chamava a atenção das garotas e não é à toa que, em decorrência de um problema no namoro vivido com uma delas, acabou sendo expulso de sua escola. De mais uma, a propósito...

Seus pais, extremamente cultos e a mãe, inclusive ligada à psiquiatria, passaram a acreditar que, em nome de seu comportamento, os colégios tradicionais não estavam dando certo para o filho. Pensando nisso, resolvem matriculá-lo no Pentagrama, uma instituição que alega ser autêntica, com uma forma de educar mais alternativa e sem as tantas cobranças feitas por outras. Em seu primeiro dia de aula, todavia, Ludo percebe que até para ser diferente há um limite. Na sua sala há um estranho cheiro de gente que não toma banho há muito tempo, uma bagunça desoladora e alunos estranhos, como uma menina que vomita gosma verde e gira a cabeça num ângulo improvável, além de rapazes com parte das roupas rasgadas, como se tivessem participado de uma competição, ou outros, ainda, donos de dentes caninos incrivelmente desenvolvidos. Ele não sabe, mas talvez, de fato, alguma coisa dos seus amados filmes de terror exista na realidade. E vivenciá-la não será, de longe, tão legal quanto parece.

Garotos Malditos é um juvenil diferente em todos os sentidos possíveis. Entre tantos adjetivos que podemos usá-lo para classificá-lo, destaco a condição de autêntico. Não por falar de temas sobrenaturais com os quais o jovem leitor já está familiarizado, mas, principalmente, por se utilizar desses mesmos meios ao mostrar um retrato de uma juventude vivenciada, não por americanos ou europeus, como vemos constantemente, entretanto, por brasileiros. A começar pelos nomes que, ao contrário dos tantos Edwards e Johns, trazem-nos Camila, Fábio, Lucinha e mais tantos outros que aparecem em nosso dia a dia.

Interessante também destacar o fato de que, ao contrário das narrativas juvenis convencionais em primeira pessoa, o narrador desta trama é um rapaz. E não um rapaz de livros como Dezesseis Luas, meio afeminado e tonto de paixão, ou até mesmo o doce e sempre divertido Percy Jackson, mas um jovem de verdade, de carne e osso, um Ludo cheio de defeitos e qualidades, que pensa várias bobagens - e as inclui em seu texto -, além de quebrar tabus entre adolescentes como o sexo e o diálogo entre pais e filhos.
"Sei também que é meio ridículo ficar fazendo drama por causa de colégio - que quando a gente cresce tem coisas bem mais sérias para se preocupar, e se sustentar, e aguentar chefe chato, blá-blá-blá. Mas o que importa é que agora - nesta fase da vida - eu tenho é de suportar o colégio, então é isso o que eu tenho para reclamar. Mais imbecilidade ainda achar tudo lindo e perfeito só porque o sofrimento poderia ser maior. É mais ou menos como aqueles caras que passam dois meses sequestrados, daí, quando voltam para casa, dão entrevista para a TV dizendo: "Este é o dia mais feliz da minha vida." Poxa, mais feliz da sua vida? Mais feliz do que quando fez esse um milhão que acabou pagando de resgate? Então valeu a pena o sequestro, não foi? Bom investimento.
Mais ou menos isso."
p. 23
Sem nunca cair na mesmice, Santiago Nazarian também inova ao fazer a sua abordagem de um contexto que mistura terror, sobrenatural e, principalmente, muito humor. Suas criaturas além da humanidade não carregam consigo aquelas histórias gigantescas de antecedentes que os autores do gênero costumam escrever, mas quase que exclusivamente a natureza pura de vampiros, lobisomens e zumbis. Todos meio ridicularizados, diga-se de passagem, pelo tom de discurso sempre irônico por parte de Ludo. Isso sem contar as várias expressões e gírias acrescentadas por ele ao longo do texto que fazem o leitor rir à primeira vista.

Contando com excelentes ilustrações de Lestrange responsáveis por dar o tom certo à história, num número de páginas que torna a leitura enxuta e uma proposta autêntica entre os tantos juvenis do mercado, Garotos Malditos vai definitivamente conquistar o seu público alvo. E dessa vez, importante ressaltar, sem ter os toques de romance já temido por alguns, também pode atrair muitos rapazes, além das garotas que, habitualmente, representam a maioria literária.

Informações técnicas
Título: Garotos Malditos
Autor: Santiago Nazarian
Editora: Galera Record (cedido em parceria)
Número de páginas: 250
ISBN: 978-85-01-09838-2
Gênero: Literatura brasileira; Juvenil

Santiago Nazarian publicou diversos romances e contos "para adultos" (ou quase). Nasceu em São Paulo, ms já morou em Londres, Porto Alegre, Florianópolis e Helsinque. Foi um desses garotos malditos, fanático por filmes de terror, répteis e rock alternativo.

Uma boa semana a todos!

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