Título: Lugar Nenhum
Título original: Neverwhere
Autor: Neil Gaiman
Tradução de: Juliana Lemos
Editora: Conrad
Número de páginas: 334
Edição: 2010
ISBN: 978-85-7616-408-1
Gênero: Fantasia; Literatura Inglesa
“Uma voz lá no fundo de Richard lembrou que Atlântida nunca existiu e, ousada, continuou dizendo que anjos também não existiam e que, além disso, as experiências pelas quais ele havia passado nos últimos dias eram impossíveis. Richard a ignorou. Era estranho, estava aprendendo a confiar em seus instintos [...]”
Em um dos quatro comentários estampados na parte de trás de Lugar Nenhum, feitos por veículos informativos e pessoas influentes no mundo literário, encontramos as duas características perfeitas para defini-lo, segundo o Libération: “Assustador e fascinante.” O limiar entre uma fantasia mais inocente e outra quase adulta, gótica.
Não é raro ouvirmos por aí fortes referências literárias a Neil Gaiman no quesito fantástico dos tempos modernos. O autor que é consagrado, principalmente, por obras como Coraline e Sandman traz neste volume – uma de suas primeiras publicações, senão a primeira – um mundo todo à parte a ser desvendado pelo leitor.
Começamos a história com Richard Mayhew, um londrino que leva uma vida mundana e um tanto quanto sem graça. Tem um trabalho comum, mora em um apartamento alugado, coleciona trasgos de brinquedo e está noivo de Jessica, uma moça bonita e ambiciosa que o faz sentir-se, de maneira inconsciente, como um fracassado, sem que o próprio compreenda o motivo de ela gostar justamente dele. Logo ao início notamos que Richard é um personagem sereno, tranquilo, passando até por disperso ao esquecer-se de um jantar importantíssimo que faria com Jess e seu patrão. Paralelamente a esses fatos, há uma outra narração mais misteriosa que nos apresenta a um mundo obscuro, entre túneis e esgotos, no qual uma jovem moça tenta fugir de dois assassinos desumanos e cruéis. Os fatos acontecem paralelamente e, na mesma noite em que Richard sai para jantar com a noiva, a moça fugitiva dos assassinos vai parar nas ruas da Londres de Cima . É aí que o rapaz, contrariando a vontade de sua namorada, deixa de seguir em frente, disposto a salvar a menina frágil que sangra, tão vulnerável e abandonada, parte de um mundo sobrenatural que pulsa no subterrâneo escuro e assustador da metrópole londrina. É aí que a realidade e a fantasia se confundem, através do apoio cego de Richard e da vulnerabilidade de Door, Londres de Cima e Londres de Baixo.
O que o protagonista da história não esperava, entretanto, era que dar socorro à moça faria sua vida se tornar um verdadeiro caos. Para salvá-la, percorre passagens no subsolo nunca antes imaginadas e descobre todo um mundo palpável e diferente de tudo que até então conhecia. Uma vez com Door curada, entretanto, ela o deixa com um pedido sincero de desculpas e temos, então, uma das grandes problemáticas do livro. Após o estranho contato com aquelas pessoas estranhas e aquele mundo obscuro, o rapaz descobre que ninguém em sua Londres pode vê-lo, senti-lo, ouvi-lo. Richard apenas não existe mais e, apavorado com a possibilidade, descobre uma forma de voltar à Londres de Baixo e obter, novamente, o direito de uma vida comum, humana.
O universo sobrenatural ao qual Neil Gaiman nos conduz é, entre outras coisas, insano. Os personagens do submundo são assustadores, por vezes bizarros e a imaginação do leitor voará longe ao ler cada descrição exagerada de um lugar todo à parte. Marqueses que colecionam quinquilharias, ratos que são soberanos altamente respeitados, falantes de “ratês”, assassinos cruéis e nojentos, moradores de esgoto, mercados exóticos que vendem desde curry a cadáveres em decomposição. Toda a ambientação passa a impressão de algo escuro, sempre permeando o gótico, mas sem perder umas boas doses de ironia e até humor.
“Os convidados aplaudiram: nenhum deles tinha dúvidas a respeito de quem havia colecionado todos aqueles anjos ou desembolsado o dinheiro para o champanhe.”
Richard então passa a acompanhar a jovem Door, o marquês De Carabas e a caçadora Hunter pelos túneis do submundo em busca de uma solução para seu problema e, paralelamente, envolve-se na jornada daquela que salvou por vingança. Toda a família de Door foi assassinada e ela lutará bravamente para ter suas respostas e, ao fim, agir em nome do povo de seu sangue.
A narrativa é surpreendente e conta com personagens interessantes, apesar de deixar em dúvida o envolvimento entre os mesmo algumas vezes. Neil Gaiman, talvez na intenção de sintetizar o seu mundo fantasioso, acaba por deixar o leitor confuso a respeito do que há entre Richard e Door, sem aprofundar em suas personalidades, seus medos e fraquezas com um toque quase impessoal, recompensado por alguns momentos de devaneio do protagonista que nos aproximam dele.
Há outras figuras interessantes como a inocente Anaesthesia, a destemida e obcecada por lutas, Hunter, o duvidoso Carabas, que acaba por se mostrar talvez a personalidade mais palpável e bem construída.
Entre os poucos pontos negativos, o desfecho da história pode acabar sendo rápido e confuso demais, deixando alguns assuntos pendentes e um gosto de insatisfação ao leitor, melhor seja a trama do livro. No mais, diria que é perdoável por ser o começo do grande Neil Gaiman e que também, em condição de minha primeira leitura por parte do mesmo, é sólida o suficiente para se consagrar e causar tão boas impressões como pude notar que causou.
Se estiver buscando por uma fantasia diferente, com ares talvez não tão puros e infantis, indico a leitura de Lugar Nenhum.
"Eu sempre considerei a violência o último refúgio dos incompetentes e as ameaças vazias o último abrigo dos ineptos sem salvação."
Avaliação Geral:
Nota 4 de 5 (Muito Bom)
Uma boa quinta-feira a todos e não deixem de comentar se quiserem vencer a promoção dos três top comentaristas de novembro.
Sua,