03 outubro 2012

Dezessete e uns quebrados

Fonte: We Heart It
Na quarta-feira passada, soprei minha décima sétima vela de um bolo ótimo, chocolate. Soprei duas velas, na verdade, uma bastante emblemática e tecnológica, de celular (esses aplicativos de hoje em dia estão incríveis), outra convencional, com pavio e fogo, daqueles que demoram a apagar, como a própria juventude custa a deixar nossas almas em dia de festa.

E não sei se é a quantidade de pessoas que se lembra de nós nesses dias, gente da qual nós mesmos nos esquecemos ao longo de todo o resto do ano, ou se é simplesmente mais uma primavera a passar, contudo, parece-me que todo aniversariante tem um quê de reflexivo. Eu tenho, pelo menos. Filosofia pura, ou talvez seja medo de envelhecer. Às vezes é só tensão pré-vestibular, mas não tenho certeza. Sei apenas que a coisa é brava.

Aniversariante do dia toma banhos demorados, com a água quente descendo pelo corpo mais velho enquanto a cabeça fervilha de ideias, de projetos e arrependimentos daquilo que poderia ter sido feito, no futuro do pretérito. Acha tudo inspirador, assiste ao noticiário e, decidido, vai criar uma ONG para ajudar as crianças do sertão nordestino. Ou talvez tenha sido só um sonho, mais uma utopia que a vida traiçoeira tratou de criar em meio à euforia de receber toda a atenção por fazer aniversário. Senta próximo à janela do carro ou do ônibus e fica a contemplar as pessoas indo e vindo na rua, meio nostálgico pelos anos que não serão mais. Abre caixas de sapato empoeiradas no armário e, com lágrimas ou sorrisos nos olhos - os quais, particularmente falando, acho mais belos -, lê cartas redigidas com tanto carinho por amigos, namorados e familiares. Cartas que dizem "Ei, Ana" ou entradas de cinema que representem paixões deixadas para trás, já fazendo anos.

Pensando no quão pouco eu tinha vivido até o dia 26 de setembro, cheguei à conclusão de que fora bastante. Refletindo sobre o quanto já tinha participado da história dos outros, percebi que os outros agora também faziam parte da minha história. Não dessas histórias imbatíveis e repetitivas que avós narram aos netos como epopeias eternas, mas dessas que podem ser jogadas numa roda de amigos, dessas que são silenciadas por gargalhadas joviais ou de outras, as que se afogam nos copos da bebida, sempre mais tentadora que as próprias histórias.

Escrevendo a narrativa da minha vida, com alguns floreios de ficção e neologismos de estilo, já posso dizer que tirei 10 em química, li José de Alencar e Alexandre Dumas Filho, vi um protesto político em Buenos Aires, aprendi a cozinhar (e não, não me refiro a miojo ou pipoca de micro-ondas), assisti a um filme iraniano no cinema, participei de uma manifestação estudantil (e fotografei com ímpetos jornalísticos), emprestei doze livros num final de semana (ainda estou sofrendo com isso), fiz poucos mas bons amigos, apaixonei-me um pouco, pela metade e inteiramente no verão, até que chegou outra primavera e fiquei mais velha, mais uma vez.

No dia 29, quando contava eu 17 e uns quebrados, recebi a terrível notícia de que um amigo meu, ou colega, colega e amigo, tinha falecido num acidente de carro. Fiquei chocada, perturbada, revoltada, triste. Daí percebi que 17 anos eram uma história mesmo, que jovem não era imortal e também podia morrer a qualquer hora. Para o Diogo, foi uma vida. E também ele contava 17 e uns quebrados.

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