15 abril 2013

Efeitos colaterais de "Ensaio sobre a Cegueira"


Ensaio sobre a Cegueira é um livro que, sem meias palavras, dói. Daqueles que tocam as feridas mais inimagináveis na alma da gente. Daqueles que incomodam, dão raiva e, enfim, abrem os olhos para uma realidade paralela. Meio metafórico, talvez.

Como o foi com Delírio, não pretendo, com estes efeitos colaterais, fazer uma outra resenha da obra de José Saramago. Este texto, na verdade, propõe uma reflexão um pouco mais densa que aquela permitida pela redação crítica. Não me comprometo, aqui, em analisar, sintetizar ou mesmo me justificar com excertos. A proposta é bem mais simples, ou mais complicada em sua essência - se é que me bem compreende o leitor.

Desde muito jovem, de todos os cinco sentidos dos quais sou dotada, tenho um apreço especial pela visão. Não que algum deles, se repentinamente tirado de mim, fosse fazer menos falta. Engana-se quem assim o pensa. Por outro lado, todavia, sou passional com as cores, com as formas e com a vibrante luz que é mandada a cada ínfimo intervalo de tempo para meus olhos. Gosto de apreciar, sem ter muitos motivos - talvez até pela falta deles - o espetáculo de vida que se move diante de mim, um dos direitos inalienáveis de qualquer ser (humano ou não).

Mal posso imaginar, desta forma, como seria se todo o mundo, de uma hora para a outra, se apagasse. Ou, como faz Saramago, se acendesse tanto, com uma luz tão leitosa, de forma a cegar. Como traduzir, em palavras francas, a agonia de quem é poupado de um de seus bens mais preciosos? E se todas as pessoas existentes nesta mesma Terra (ou quase todas), de repente, também sofressem deste mesmo mal? Quem estaria à frente das grandes instituições? Como o novo governo seria? Quem exerceria as funções imprescindíveis para o cotidiano humano? Como transportar água e comida? Como fazer uma manutenção de limpeza? Como impedir o alastramento de doenças? Como não deixar que o caos se espalhe por todo o ar e superfície tal qual uma substância gasosa, nauseabunda e pestilenta?

Mais uma vez, somos levados a refletir a respeito de nossa própria condição. Esta que, em circunstâncias extremas, beira a um desespero animalesco, a um instinto primitivo de sobrevivência que impulsiona aquilo que há de melhor e de pior, atingindo, em seu ápice, a morte.

A humanidade, em Ensaio sobre a Cegueira, de tão cega, nunca experimentou tamanha transparência. Com seus instintos à flor da pele, as paixões são intensificadas: o amor é separado do ódio por uma linha tênue, fina e delicada; o desejo e a necessidade de desejar convivem silenciosamente; e o medo, enfim, grita nas lacunas brancas em que a visão se perde. Aboliram-se o pudor, a limpeza, a vergonha, a integridade e tudo mais que o ser humano tentava conservar em seus valores. Transviados, perdidos, roubados de si mesmos, violados, tentam, em vão, seguir em frente.

Pergunto-me, desta forma, como seria se alguma catarse de tamanha magnitude se abatesse sobre este mundo já tão cheio de guerras, de segregações, de vivência hostil e extremos sociais. Pergunto-me se e até arrisco (hesito) em dizer que, talvez, com toda a nossa vil crueldade, já estejamos todos meio cegos de humanidade, de franqueza e de compreensão. Olhos que muito veem. Azul, verde, amarelo, vermelho, laranja, índigo. E pouco enxergam, atentam-se. Branco. Da vida que mal compreendemos, esta que se espalha e gira numa roda vibrante de sentimentos tão paradoxais.

Com uma dose diária de alienação, pitadas de indiferença e alguns bons goles de egoísmo, vamos deixando 
o mundo nítido para trás e nos perdendo na brancura de nós mesmos.


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