Sempre que uma figura polêmica nos deixa, é comum que se sigam a ela, além do luto, diferentes biografias que tentem reproduzir os motivos responsáveis por conduzi-la à condição de pessoa notabilíssima. Muitas vezes dotadas de uma qualidade questionável, todavia, estas biografias não raramente se mostram equivocadas, divulgando materiais falsos, sem apuração de informações ou qualquer senso de responsabilidade além da própria vontade de aumentar o caráter protagonizador de quem se foi.
À morte de Hugo Chávez, o emblemático presidente da Venezuela, irromperam biografias com visões das mais variadas: direitistas e esquerdistas, favoráveis e contrárias, racionais e passionais... Anos de amor e de ódio serviram de combustível para narrar a importância e o impacto do líder nas vidas de extremos das classes sociais venezuelanas. Em terras brasileiras, naturalmente, dada a proximidade com o pais de origem do presidente, não tardou até que também chegassem as tais obras. Do relato de Rory Carroll, correspondente por anos no Guardian, enfim, o leitor tem a chance de ser contemplado com uma narrativa que pretende, acima de todas as coisas, não cair no sensacionalismo e nem tampouco na parcialidade demasiada. Pretensão esta que, felizmente, ao final da leitura, foi alcançada pelo jornalista.
Aparentemente, ao início, o próprio título Comandante sugere que a visão do autor será, de certa forma, saudosista. Uma vez acompanhando aquilo que a narrativa traz consigo, porém, cheguei rapidamente à conclusão de que as recomendações de jornais na contracapa não eram, aliás, enganadoras. Carroll, de alguma forma, após longa experiência jornalística em nações paupérrimas e em zonas de conflito (Iraque, Afeganistão e África do Sul, por exemplo), possibilita ao leitor o conhecimento de Chávez e de seu governo desde o início de sua militância sem ser tendencioso, mas com base em grande material recolhido durante entrevistas. As entrevistas, inclusive, falam por si no quesito imparcialidade: são membros da alta elite de Caracas e defensores da direita contrariando cidadãos pobres do campo que idolatram a figura do comandante; ministros que temem sua liderança e revolucionários que, por outro lado, a desafiam.

























